<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/"><channel><title><![CDATA[Citrica]]></title><description><![CDATA[crítica & teatro]]></description><link>https://citricacritica.com/</link><image><url>https://citricacritica.com/favicon.png</url><title>Citrica</title><link>https://citricacritica.com/</link></image><generator>Ghost 5.89</generator><lastBuildDate>Thu, 23 Apr 2026 13:34:11 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://citricacritica.com/rss/" rel="self" type="application/rss+xml"/><ttl>60</ttl><item><title><![CDATA[7x1 para o teatro]]></title><description><![CDATA[<p>&#x201C;Se depender de mim, Camila Damasceno, n&#xE3;o tem Neymar nessa pe&#xE7;a&#x201D;, disse a dramaturga do N&#xFA;cleo Tumulto!, que fez uma abertura de processo no Palco Pra&#xE7;a do Instituto Brasileiro de Teatro com o espet&#xE1;culo em constru&#xE7;&#xE3;</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/7x1-para-o-teatro/</link><guid isPermaLink="false">68d89d885b4430040fadf581</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Sun, 28 Sep 2025 02:30:49 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>&#x201C;Se depender de mim, Camila Damasceno, n&#xE3;o tem Neymar nessa pe&#xE7;a&#x201D;, disse a dramaturga do N&#xFA;cleo Tumulto!, que fez uma abertura de processo no Palco Pra&#xE7;a do Instituto Brasileiro de Teatro com o espet&#xE1;culo em constru&#xE7;&#xE3;o &#x201C;Resenha&#x201D;. O grupo coloca no palco um est&#xE1;dio/est&#xFA;dio, com duas cadeiras de praia e um cooler em cima de um ret&#xE2;ngulo de grama sint&#xE9;tica no ch&#xE3;o e na frente de um ret&#xE2;ngulo de tela verde que forma uma parede, que se transforma, atrav&#xE9;s de uma c&#xE2;mera e duas televis&#xF5;es, em praias, bares, ruas, logos de casas de apostas, comerciais de chuteiras. Nessas mesmas telas aparecem frases ic&#xF4;nicas sobre futebol, como uma de Nelson Rodrigues, &#x201C;O pior cego &#xE9; o que s&#xF3; v&#xEA; a bola&#x201D;, peda&#xE7;os da anima&#xE7;&#xE3;o do Z&#xE9; Carioca com o Pato Donald, cenas pr&#xE9;-gravadas dos performers - Gustavo Braunstein e a pr&#xF3;pria Camila, &#xFA;nica mulher de uma pe&#xE7;a sobre futebol, que compartilha que sente-se enganada por querer &#x201C;apenas escrever o texto&#x201D; e acabar em cena, mascarada de carcar&#xE1; - e tamb&#xE9;m trechos de entrevistas com jogadores falando sobre seus trabalhos.</p><p>A pe&#xE7;a, dirigida por Fabiano Lodi, reflete o tempo todo sobre as rela&#xE7;&#xF5;es de trabalho no futebol e no teatro. O Tumulto! insiste na perspectiva de que os jogadores de futebol s&#xE3;o trabalhadores. Para isso, traz o exemplo de Marta que, mesmo tendo conquistado cinco Bolas de Ouro, n&#xE3;o conseguia tirar mais que tr&#xEA;s mil reais de sal&#xE1;rio por m&#xEA;s; mostra Garrincha falando que n&#xE3;o tinha a dimens&#xE3;o dos valores baix&#xED;ssimos de seus contratos, e S&#xF3;crates que, por outro lado, reconhece que ganhava muito mais dinheiro que a maior parte da popula&#xE7;&#xE3;o brasileira, mas que ainda era pouco para o impacto cultural que provocava; e, por fim, a fala de Djalminha, que reivindica que o jogador de futebol da s&#xE9;rie D &#xE9; t&#xE3;o jogador de futebol quanto quem joga na Europa.&#xA0;</p><p>&#x201C;Resenha&#x201D;, na verdade, n&#xE3;o &#xE9; sobre futebol. N&#xE3;o h&#xE1;, inclusive, nenhuma bola em cena. Gustavo tamb&#xE9;m comenta sobre seu trabalho no teatro, trazendo as semelhan&#xE7;as que tem com os jogadores de futebol. Os atores tamb&#xE9;m fazem publicidades e t&#xEA;m seus corpos como mat&#xE9;ria-prima de seu trabalho. Mencionam o tempo todo sobre &#x201C;Atacante&#x201D;, processo do n&#xFA;cleo que teve abertura na Mostra Farofa de 2024 e que partia do futebol para falar sobre coloniza&#xE7;&#xE3;o, mas que n&#xE3;o conseguiu seguir adiante por motivos de produ&#xE7;&#xE3;o. Na fic&#xE7;&#xE3;o de &#x201C;Resenha&#x201D;, &#x201C;Atacante&#x201D; circulou por est&#xE1;dios de todo o Brasil e at&#xE9; internacionais, conquistando p&#xFA;blicos de dezenas de milhares de pessoas, com v&#xED;deos projetados em tel&#xF5;es gigantes pelo est&#xE1;dio e um globo da morte no centro do campo, tornando o grupo milion&#xE1;rio e conhecido mundialmente.&#xA0;</p><p>Um dos momentos mais destac&#xE1;veis de &#x201C;Resenha&#x201D; &#xE9; quando os performers agitam a plateia, transformando-a em torcida. O p&#xFA;blico se levantou chacoalhando os grandes peda&#xE7;os de tecido preto e amarelo que decoravam as arquibancadas, uma de cada lado do palco, encarando uma &#xE0; outra. Todo o grupo tinha camisetas de futebol das mesmas cores, com o escudo do grupo do lado esquerdo do peito. Ao inv&#xE9;s de patrocinadores, havia uma ilustra&#xE7;&#xE3;o de um pulm&#xE3;o; ao inv&#xE9;s do nome dos jogadores, estava escrito &#x201C;Tumulto!&#x201D;. Gustavo conta que recentemente os torcedores do Palmeiras foram chamados de &#x201C;torcida de teatro&#x201D;, j&#xE1; que n&#xE3;o cantavam nenhuma m&#xFA;sica. Enquanto driblava advers&#xE1;rios invis&#xED;veis, mobilizou a plateia a torcer pelo teatro. Camila cruzava o palco com uma placa escrito &#x201C;ol&#xE9;&#x201D;, puxando gritos da torcida, e depois, finalmente, o &#x201C;gol&#x201D;. Nessa altura, toda a plateia estava de p&#xE9;, gritando a plenos pulm&#xF5;es sem t&#xEA;-lo desenhado em suas camisetas, reivindicando o teatro em meio &#xE0;s placas do IBT: &#x201C;teatro e &#xE1;gua&#x201D;, &#x201C;aqui, tudo &#xE9; teatro&#x201D;, &#x201C;teatro &#xE9; direito&#x201D;.&#xA0;</p><p>Outro momento que engajou o p&#xFA;blico - e tinha potencial para muito mais - foi uma conversa sobre hinos. Depois de cantarem o hino do Corinthians, perguntam para a plateia se algu&#xE9;m conhece alguma m&#xFA;sica de time fora do Sudeste, mais desconhecido. Puxam alguns, o do Juventus, do Gr&#xEA;mio, mas a vontade geral foi de cantar o hino do seu pr&#xF3;prio time. E junto com os cantos, surge uma reflex&#xE3;o bonita: de onde vem a sua torcida? Um santista da plateia respondeu que veio da torcida de seu pai e Camila contou que passou a ser flamenguista depois de se encantar com Leovegildo J&#xFA;nior, e acrescenta que adoraria tomar uma cerveja com ele. Ent&#xE3;o aparece Gustavo com uma m&#xE1;scara tosca de papel com o rosto de J&#xFA;nior e realiza o desejo de sua colega de cena. Os dois tomam mais uma Stella Artois nas cadeiras de praia.&#xA0;</p><p>O N&#xFA;cleo Tumulto! conquista pelos efeitos c&#xF4;micos constru&#xED;dos na pr&#xF3;pria estrutura de cena. As cr&#xED;ticas elaboradas chegam atrav&#xE9;s de piadas toscas. Dancinhas de tiktok, v&#xED;deos do GTA, xingamentos sobre o time do outro. A resenha, &#xE0;s vezes, se perde pelas idas e vindas de assuntos e personagens e talvez seja valoroso demarcar com mais afinco a situa&#xE7;&#xE3;o fundamental da pe&#xE7;a. Ao mesmo tempo, &#xE9; admir&#xE1;vel a capacidade de recorte frente a um universo t&#xE3;o amplo quanto o do futebol, assim como a compet&#xEA;ncia do grupo em oferecer uma experi&#xEA;ncia para o p&#xFA;blico. Os aplausos foram de p&#xE9;, n&#xE3;o s&#xF3; pelos c&#xF3;digos sociais do teatro, mas porque a plateia estava doida para pular nas arquibancadas e gritar novamente na torcida pelo teatro. Um gol do N&#xFA;cleo Tumulto!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[E o verbo se fez carne]]></title><description><![CDATA[<p>No caminho entre a porta do teatro e os assentos da plateia, o palco. Em seu centro, uma estrutura alta, que atravessa os tr&#xEA;s andares, com duas grandes televis&#xF5;es de plasma e outras v&#xE1;rias televis&#xF5;es pequenininhas de tubo. No topo, c&#xE2;</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/e-o-verbo-se-fez-carne/</link><guid isPermaLink="false">68d3355d5b4430040fadf577</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Wed, 24 Sep 2025 00:06:20 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>No caminho entre a porta do teatro e os assentos da plateia, o palco. Em seu centro, uma estrutura alta, que atravessa os tr&#xEA;s andares, com duas grandes televis&#xF5;es de plasma e outras v&#xE1;rias televis&#xF5;es pequenininhas de tubo. No topo, c&#xE2;meras de seguran&#xE7;a distribu&#xED;das em um c&#xED;rculo que observam a totalidade do espa&#xE7;o. Assim como &#x201C;Babel&#x201D;, escultura de Cildo Meireles, essa instala&#xE7;&#xE3;o j&#xE1; nos coloca de cara frente &#xE0; uma cacofonia de imagens e um encontro ca&#xF3;tico de telas que n&#xE3;o se comunicam.&#xA0;</p><p>&#x201C;O Auto do fim do tempo&#x201D;, nova pe&#xE7;a do Teatro Man&#xE1;s Laborat&#xF3;rio e a primeira montada em sua sede pr&#xF3;pria, traz uma sequ&#xEA;ncia de doze epis&#xF3;dios inspirados pelo cotidiano que revelam os tempos apocal&#xED;pticos contempor&#xE2;neos que se aproximam de sua finitude.</p><p>Cada cena &#xE9; um coro, formado pelos tr&#xEA;s atuantes: coro das carnes, coro da culpa, coro do tribunal, coro da morte e por a&#xED; vai. Os t&#xED;tulos s&#xE3;o revelados ao p&#xFA;blico tanto no programa, quanto nas televis&#xF5;es, acompanhados por um recorte do quadro &#x201C;O Jardim das Del&#xED;cias&#x201D;, de Hieronymus Bosch. A obra foi feita no fim da Idade M&#xE9;dia e tamb&#xE9;m traz um encontro ca&#xF3;tico de figuras bizarras, por&#xE9;m humanas, completamente entregues aos prazeres da carne.&#xA0;</p><p>Talvez seja por isso que o diretor Dante Passarelli referencia o vers&#xED;culo Jo&#xE3;o 1:14 e diz que &#x201C;A palavra (verbo) &#xE9; corpo (carne). Esta &#xE9; uma jornada pautada nos sentidos para al&#xE9;m do intelecto, isto &#xE9;, trata-se de uma jornada visual, auditiva e simb&#xF3;lica. Aqui, os atores representam menos do que funcionam fisicamente - e &#xE9; dessa fun&#xE7;&#xE3;o sensorial que emerge a narra&#xE7;&#xE3;o das cenas&#x201D;.</p><p>Entre o Jardim do &#xC9;den e o Inferno, &#x201C;O auto do fim do mundo&#x201D; traz um mundo corrompido pelo pecado e o inevit&#xE1;vel sofrimento p&#xF3;stumo. As refer&#xEA;ncias b&#xED;blicas iniciam-se no pr&#xF3;prio t&#xED;tulo. Os atuantes est&#xE3;o o tempo todo por entre ma&#xE7;&#xE3;s, jogadas no espa&#xE7;o c&#xEA;nico t&#xE9;rreo na primeira cena - o uso do espa&#xE7;o, inclusive, &#xE9; um dos aspectos mais interessantes da encena&#xE7;&#xE3;o. Acompanhamos os atuantes subindo e descendo escadas em diferentes dist&#xE2;ncias que fazem parte da pr&#xF3;pria estrutura do teatro.&#xA0;</p><p>Vemos cabe&#xE7;as sem corpos falando do canto direito, no terceiro andar do teatro. Toda a atmosfera da encena&#xE7;&#xE3;o gira em torno do sombrio; a contraluz valoriza as silhuetas escuras, a trilha sonora acompanha o perp&#xE9;tuo sofrimento do coro que narra, muitas vezes em mon&#xF3;logos. A atmosfera, junto com as a&#xE7;&#xF5;es que propositalmente n&#xE3;o t&#xEA;m a ver com o que est&#xE1; sendo dito, tiram os temas de seu cotidiano e se tornam mais interessantes do que os textos, que no papel despertavam sustos e risadas.&#xA0;</p><p>&#xC9; importante reivindicar as sedes dos grupos de teatro e frequentar as suas programa&#xE7;&#xF5;es, que costumam se manter apenas com o lucro da bilheteria. Tem mais a ver com a &#xE9;tica dos grupos pagar 25 reais em um ingresso de um teatro de rua do que doar 25 reais para o monop&#xF3;lio do SESC.&#xA0;</p><p>Igualmente importante s&#xE3;o os espa&#xE7;os para pensar e debater dramaturgia, como &#xE9; o caso do Laborat&#xF3;rio Aberto do Teatro Man&#xE1;s Laborat&#xF3;rio que acontece uma vez por m&#xEA;s e tamb&#xE9;m dos piquetes da plataforma de a&#xE7;&#xF5;es da palavra Urgia, que s&#xE3;o semanais. Fernanda Zancop&#xE9; tirou o texto guardado h&#xE1; anos na gaveta para levar aos dois eventos e assim redescobriu os desejos que tinha com &#x201C;O auto do fim do tempo&#x201D;. A pe&#xE7;a fica em cartaz todas as segundas e ter&#xE7;as at&#xE9; dia 4 de novembro. Tempo sem fim; n&#xE3;o tem desculpa para n&#xE3;o assistir. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Old que algo aconteceu]]></title><description><![CDATA[<p>Desenhos para colorir - Bobbie Goods - com imagens da pe&#xE7;a. Maquiagens coloridas de festas infantis por debaixo de m&#xE1;scaras com cabe&#xE7;as envelhecidas e desfiguradas e perucas despenteadas. Toalhas estampadas com desenhos animados. Os acordes da abertura de Bob Esponja aparecendo repentinamente no meio</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/old-que-algo-aconteceu/</link><guid isPermaLink="false">68c845f55b4430040fadf56c</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Mon, 15 Sep 2025 17:00:35 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Desenhos para colorir - Bobbie Goods - com imagens da pe&#xE7;a. Maquiagens coloridas de festas infantis por debaixo de m&#xE1;scaras com cabe&#xE7;as envelhecidas e desfiguradas e perucas despenteadas. Toalhas estampadas com desenhos animados. Os acordes da abertura de Bob Esponja aparecendo repentinamente no meio de uma m&#xFA;sica. Tudo! T&#xEA;nis de rodinhas. Crocs. Brinquedos que tocam m&#xFA;sica sendo tirados de um cooler. Uma pessoa mascarada sendo levantada por um macaco mec&#xE2;nico. Old que &#x201C;Nada nos acontece&#x201D; serve cunt. Mas, sobretudo, o Teatro da Matilha faz uma declara&#xE7;&#xE3;o de amor ao escolher ver beleza no feio e seriedade no tosco em um ato de generosidade radicalmente Camp. De acordo com Susan Sontag, o Camp &#xE9; a &#x201C;sensibilidade da seriedade fracassada, da teatraliza&#xE7;&#xE3;o da experi&#xEA;ncia. O Camp rejeita tanto as harmonias da seriedade tradicional quanto os riscos da identifica&#xE7;&#xE3;o total com estados extremos de sentimento.&#x201D; O Camp &#xE9; anti-tr&#xE1;gico. E as divas da Matilha divertem atrav&#xE9;s da ironia ao abordar uma filosofia completamente pessimista de um mundo em que a maior esperan&#xE7;a a ser cultivada &#xE9; que nada aconte&#xE7;a. Juro.</p><p>N&#xE3;o &#xE9; &#xE0; toa que h&#xE1; m&#xFA;ltiplas cosmovis&#xF5;es que defendem o cultivo de um imagin&#xE1;rio de futuro do planeta como forma de resist&#xEA;ncia pol&#xED;tica. De Ailton Krenak ao Solarpunk, qualquer um que converse com algu&#xE9;m que nasceu a partir dos anos 90 - como &#xE9; o caso dos que dan&#xE7;aram no palco do Sesc Pompeia - se d&#xE1; conta da exaust&#xE3;o mental da juventude. Pessoas que nos primeiros dias de escola foram ensinadas do esgotamento de recursos naturais da Terra, que atravessaram anos fundamentais de sua juventude em isolamento social e que desenvolvem rela&#xE7;&#xF5;es interpessoais esquizofr&#xEA;nicas causadas pelos est&#xED;mulos do mundo virtual. O maior desejo que essa gera&#xE7;&#xE3;o pode cultivar &#xE9; justamente o de n&#xE3;o ter nada depois.&#xA0;</p><p>Byung Chul Han argumenta que a expans&#xE3;o das redes sociais no cotidiano tem rela&#xE7;&#xE3;o direta com a crise da narra&#xE7;&#xE3;o na contemporaneidade. Narrar requer um estado de distens&#xE3;o ps&#xED;quica, requer t&#xE9;dio, e na era das redes sociais, ele argumenta, n&#xE3;o existe mais o t&#xE9;dio nem o estado contemplativo. A realidade digitalizada passa a ser a pr&#xF3;pria informa&#xE7;&#xE3;o, sem a experi&#xEA;ncia da presen&#xE7;a imediata. Ao mesmo tempo, &#xE9; somente o exerc&#xED;cio de narrar o futuro que &#xE9; capaz de nos dar esperan&#xE7;a. A crise da narra&#xE7;&#xE3;o chega aos palcos tamb&#xE9;m; h&#xE1; cada vez menos hist&#xF3;rias sendo contadas e mais fragmentos que se relacionam apenas por seu tema. &#x201C;Nada nos acontece&#x201D;, no entanto, escapa dessa l&#xF3;gica. Um orgasmo n&#xE3;o &#xE9; um fragmento. Uma epifania n&#xE3;o &#xE9; um fragmento.&#xA0;</p><p>A Matilha escolhe tratar do devir-nada, conceito de Franco &#x2018;Bifo&#x2019; Berardi, come&#xE7;ando pelo passado. Uma das int&#xE9;rpretes estoura bal&#xF5;es por debaixo da blusa e pare os beb&#xEA;s que choram comicamente pelo palco. &#xC9; ela a professora da aula de bal&#xE9; da cena seguinte. As crian&#xE7;as fazem uma apresenta&#xE7;&#xE3;o ao som de um piano pequeno tocado ao vivo, provavelmente bastante parecida com espet&#xE1;culos que fizeram h&#xE1; d&#xE9;cadas atr&#xE1;s, muito antes de se descobrirem matilha. &#xC9; a situa&#xE7;&#xE3;o mais evidente do espet&#xE1;culo, talvez por ser a mais comum no imagin&#xE1;rio das pessoas que o constru&#xED;ram: o primeiro t&#xED;tulo da coreografia foi &#x201C;Crian&#xE7;a triste&#x201D;.&#xA0;</p><p>E como consequ&#xEA;ncia de um futuro de nada, est&#xE1;, &#xE9; claro, a impunidade. Se tudo isso leva a nada, fa&#xE7;o o que quiser, em uma contradi&#xE7;&#xE3;o. Nem mesmo a hist&#xF3;ria poder&#xE1; cobrar, j&#xE1; que espera-se que n&#xE3;o existam gera&#xE7;&#xF5;es futuras. Por isso, talvez, os int&#xE9;rpretes dan&#xE7;am em dire&#xE7;&#xE3;o &#xE0; ratoeiras, criam o impulso de se beijar e, logo depois, de se agredir. Para depois continuar dan&#xE7;ando. Tamb&#xE9;m se batem com as toalhas coloridas ap&#xF3;s afogarem as cabe&#xE7;as um dos outros em baldes cheios de &#xE1;gua. E depois dan&#xE7;am encharcados, com o som rid&#xED;culo do ch&#xE3;o de madeira molhado. Ou apagam cigarros uns nos outros sem fum&#xE1;-los, para depois continuarem dan&#xE7;ando. Em uma opera&#xE7;&#xE3;o Camp, o Teatro da Matilha promove o seu senso est&#xE9;tico com divertimento, que neutraliza a indigna&#xE7;&#xE3;o moral e, mais al&#xE9;m, dissolve a moralidade.&#xA0;</p><p>Partindo do nada, o Teatro da Matilha definitivamente faz algo acontecer - sen&#xE3;o com eles, ao menos com o p&#xFA;blico. Uma &#xFA;nica frase do folheto que &#xE9; entregue ao final j&#xE1; &#xE9; alguma coisa: &#x201C;Pessimismo &#xE9; reconhecer o tamanho da dan&#xE7;a e se propor a dan&#xE7;ar mesmo assim&#x201D;. Talvez seja essa consci&#xEA;ncia pessimista que a juventude deveria assumir, para aprender a propor a partir dela. Nada vai acontecer ainda nos dias 30 e 31 de agosto, s&#xE1;bado &#xE0;s 19h30 e domingo &#xE0;s 17h30, no Sesc Pompeia. Vai assistir que t&#xE1; tudo.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A performance do feminino e o feminino da performance]]></title><description><![CDATA[<p></p><p>A grande virtude que a Cia. Banz&#xE9; mostra no Encontro de Teatro Universit&#xE1;rio de 2025 &#xE9; a ousadia, levando ao palco do Tusp Butant&#xE3; uma pesquisa de linguagem bastante admir&#xE1;vel. O grupo, formado na disciplina Encena&#xE7;&#xE3;o II, que faz parte da</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/untitled-2/</link><guid isPermaLink="false">68a36f0418fb7b0331262df5</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Mon, 18 Aug 2025 18:28:06 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p></p><p>A grande virtude que a Cia. Banz&#xE9; mostra no Encontro de Teatro Universit&#xE1;rio de 2025 &#xE9; a ousadia, levando ao palco do Tusp Butant&#xE3; uma pesquisa de linguagem bastante admir&#xE1;vel. O grupo, formado na disciplina Encena&#xE7;&#xE3;o II, que faz parte da grade curricular obrigat&#xF3;ria da gradua&#xE7;&#xE3;o em Artes C&#xEA;nicas na USP, se uniu atrav&#xE9;s da montagem de um &#x201C;Grito parado no ar&#x201D;, e levou ao festival a sua segunda montagem, &#x201C;Mem&#xF3;rias impressas&#x201D;, realizada no Ateli&#xEA; II. Com desejo de continuidade, o grupo se apresentou no Festival P&#xE9; Dentro P&#xE9; Fora, que aconteceu em junho de 2025 na Casa Livre. A pe&#xE7;a se prop&#xF5;e a ser uma adapta&#xE7;&#xE3;o livre a partir da dramaturgia de Claudia Schapira, trabalhada com o N&#xFA;cleo Bartolomeu de Depoimentos em 2015, inspirando-se nas tem&#xE1;ticas das feminilidades e nos procedimentos performativos, mas n&#xE3;o se limitando nelas.&#xA0;</p><p>&#x201C;Mem&#xF3;rias impressas&#x201D; tem uma estrutura bastante singular: a pe&#xE7;a muda a cada apresenta&#xE7;&#xE3;o. A dire&#xE7;&#xE3;o prepara em segredo uma dramaturgia que vai acontecer s&#xF3; nesse dia. As atrizes n&#xE3;o sabem o que vai acontecer, que &#xE9; justamente a experi&#xEA;ncia mais cativante da pe&#xE7;a: compartilhar, entre palco e plateia, a descoberta dos acontecimentos. Atrav&#xE9;s da expecta&#xE7;&#xE3;o, deseja-se com cumplicidade que as atrizes se encontrem nos textos, nas a&#xE7;&#xF5;es, na espacialidade, nos figurinos, na cenografia. Elas s&#xE3;o as &#xFA;ltimas a ver o espa&#xE7;o c&#xEA;nico, j&#xE1; que iniciam a pe&#xE7;a vendadas. Estamos todos juntos caminhando ao mesmo tempo em que se conhecem os caminhos.&#xA0;</p><p>Para que isso seja poss&#xED;vel, h&#xE1; uma s&#xE9;rie de dispositivos. Um exemplo s&#xE3;o os textos-fone, textos gravados previamente em &#xE1;udios pelas diretoras que chegam &#xE0;s atrizes atrav&#xE9;s de fones de ouvido que utilizam em cena. Elas repetem o que escutam na hora, descobrindo os assuntos e as entona&#xE7;&#xF5;es ao mesmo tempo que falam ao p&#xFA;blico. Assisti a pe&#xE7;a ao lado de Lucienne Guedes, atriz da pe&#xE7;a original, que estava notadamente nost&#xE1;lgica e emocionada. Ela foi uma das pessoas do p&#xFA;blico que quis testar os fones logo ao in&#xED;cio do espet&#xE1;culo e me sussurrou que &#x201C;elas acertaram o tempo certinho dos &#xE1;udios&#x201D;. Outro recurso utilizado s&#xE3;o as proje&#xE7;&#xF5;es, por onde aparecem textos a serem lidos pelas atrizes ou por algum volunt&#xE1;rio do p&#xFA;blico, e tamb&#xE9;m aparecem comandos para as atrizes: &#x201C;Luisa, pegue o fone com a dire&#xE7;&#xE3;o&#x201D;; &#x201C;Laura, vista o figurino X&#x201D;; &#x201C;Isabel, pegue o di&#xE1;rio no canto Y&#x201D;.&#xA0;</p><p>A escolha por esse formato leva &#xE0; radicalidade o aspecto ef&#xEA;mero das artes c&#xEA;nicas. Cada dia &#xE9; muito diferente do outro. Essa brevidade poderia ser ainda mais trabalhada ao escolher abordar, por exemplo, acontecimentos que se relacionem com as urg&#xEA;ncias midi&#xE1;ticas daquele dia em espec&#xED;fico. Na sociedade da informa&#xE7;&#xE3;o tudo &#xE9; breve e nos provoca estados permanentes de alerta; em &#x201C;Mem&#xF3;rias Impressas&#x201D; h&#xE1; a oportunidade de transformar, no palco, not&#xED;cias em narrativas.</p><p>Ao mesmo tempo, existem algumas a&#xE7;&#xF5;es j&#xE1; pr&#xE9;-estabelecidas. Toda vez que a dire&#xE7;&#xE3;o toca um dos sinos, as atrizes sabem que devem olhar para a proje&#xE7;&#xE3;o; toda vez que a dire&#xE7;&#xE3;o toca o outro sino, elas fazem uma coreografia ensaiada, ao som de &#x201C;Mulher do fim do mundo&#x201D; da Elza Soares, que funciona como transi&#xE7;&#xE3;o. H&#xE1; tr&#xEA;s cenas estabelecidas previamente, tr&#xEA;s mon&#xF3;logos - um de uma personagem que &#xE9; debutante, um de uma noiva e outro da Virgem Maria, tr&#xEA;s figuras bastante simb&#xF3;licas para a constru&#xE7;&#xE3;o do feminino - que tem seu texto, suas atrizes e seu figurino alterado toda vez. As personagens permanecem, mas tudo ao seu redor &#xE9; alterado. Al&#xE9;m das tr&#xEA;s atrizes a serem surpreendidas, existe a atriz-narradora, M&#xF4;nica, que tem textos decorados e que n&#xE3;o se alteram, e que tamb&#xE9;m auxilia, de dentro da cena, a feitura dos improvisos.&#xA0;</p><p>A Cia. Banz&#xE9; mant&#xE9;m a tem&#xE1;tica das feminilidades &#x201C;entre viol&#xEA;ncias, sonhos, recusas e desejos&#x201D;, mas atualiza, de acordo com o elenco, a vis&#xE3;o sobre o feminismo e a constru&#xE7;&#xE3;o social do g&#xEA;nero feminino. O grupo traz uma perspectiva que reflete a presen&#xE7;a de atrizes negras, de pessoas n&#xE3;o-bin&#xE1;rias - socializadas na inf&#xE2;ncia como mulheres -, de um elenco mais jovem do que na montagem original e tamb&#xE9;m os dez anos que se passaram entre uma estreia e outra.&#xA0;</p><p>Concomitantemente com a experi&#xEA;ncia est&#xE9;tica produzida pela pesquisa em torno da performatividade, existe, na estrutura dramat&#xFA;rgica, um abuso de relatos pessoais. Em todas as cenas h&#xE1; mon&#xF3;logos em primeira pessoa, a maioria em tom confessional e com uma aus&#xEA;ncia de situa&#xE7;&#xE3;o, o que depois de algum tempo de pe&#xE7;a come&#xE7;a a ser exaustivo. A personagem sempre est&#xE1; sozinha; mesmo em momentos em que todas as atrizes falam, elas buscam uma coralidade e n&#xE3;o dialogam. Reconhe&#xE7;o isso como um sintoma do teatro que circula pelos palcos dos centros culturais de S&#xE3;o Paulo em 2025 - &#xE9; dif&#xED;cil de encontrar cenas dial&#xF3;gicas dentro do circuito do teatro de grupo ou teatro de pesquisa de linguagem. Mesmo quando h&#xE1; di&#xE1;logos, parece que o &quot;verdadeiro&quot; discurso do espet&#xE1;culo chega atrav&#xE9;s dos mon&#xF3;logos. No entanto, seria interessante ver as personagens conversando, e sobretudo acompanhar a intera&#xE7;&#xE3;o entre as atrizes no jogo proposto pela pe&#xE7;a. Ainda, talvez, construir uma narrativa s&#xF3; que perdure por todo o espet&#xE1;culo, ao inv&#xE9;s de criar situa&#xE7;&#xF5;es - quando h&#xE1; - que vivem por apenas uma cena.</p><p>A pe&#xE7;a termina com uma esp&#xE9;cie de piquenique com bolo e sucos. O elenco convida o p&#xFA;blico a se sentar no espa&#xE7;o c&#xEA;nico enquanto todos comem e bebem. As atrizes iniciam a conversa relatando como se sentiram naquela sess&#xE3;o, o que mais e menos gostaram, momentos engra&#xE7;ados ou em que se sentiram confusas com a din&#xE2;mica. O p&#xFA;blico tamb&#xE9;m &#xE9; convidado a falar, e quem come&#xE7;ou foi justamente um homem que participou de uma das intera&#xE7;&#xF5;es fixas: durante uma cena de festa, depois do mon&#xF3;logo da noiva, em que todo o p&#xFA;blico participa de um baile funk no palco, foi lhe colocada uma m&#xE1;scara com um rosto de homem branco. A m&#xFA;sica parou e come&#xE7;ou um &#xE1;udio de uma voz de homem relatando desejos sexuais frente &#xE0; uma mulher de forma grotesca. Foram longos minutos. Todo o p&#xFA;blico encarando essa figura com a m&#xE1;scara, em um mix de risos de nervoso e constrangimento com o que se ouvia. Ao tirar a m&#xE1;scara, seu desconforto foi vis&#xED;vel. Na roda, ele confessou que ficou com vontade de ir embora durante esse momento. Na tentativa de falar sobre viol&#xEA;ncia contra a mulher, a pe&#xE7;a &#xE9; violenta com essa pessoa do p&#xFA;blico que, apesar do mascaramento, se sente exposta. Quem sai de casa para ir ao teatro provavelmente tem o cora&#xE7;&#xE3;o aberto para ouvir o que &#xE9; dito no palco. A generosidade &#xE9; sempre uma via de m&#xE3;o dupla.&#xA0;</p><p>A teatralidade se esvai no piquenique e os aplausos ficam confusos e se perdem no caminho - e &#x201C;Mem&#xF3;rias Impressas&#x201D; n&#xE3;o merece essa confus&#xE3;o. A pe&#xE7;a mostra um caminho de pesquisa s&#xF3;lido e de potencial inspira&#xE7;&#xE3;o para o p&#xFA;blico do ETU, com um entendimento aut&#xEA;ntico do que &#xE9; performatividade e de como oferecer uma experi&#xEA;ncia est&#xE9;tica para o p&#xFA;blico. Para o festival, o que ficou pelos corredores p&#xF3;stumos foram mem&#xF3;rias impressas nos imagin&#xE1;rios dos estudantes. Se h&#xE1; algu&#xE9;m por ali interessado em tornar-se um artista-pesquisador, uma boa dica &#xE9; aproximar-se da Cia. Banz&#xE9;. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Nem tudo é ficção]]></title><description><![CDATA[<p>O espet&#xE1;culo que abriu o Encontro de Teatro Universit&#xE1;rio (ETU) de 2025, comemorando os seus dez anos, mostra em cena o processo de produ&#xE7;&#xE3;o de um bolo. A celebra&#xE7;&#xE3;o come&#xE7;a ali, na primeira noite do festival, com &#x201C;</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/nem-tudo-e-ficcao/</link><guid isPermaLink="false">689a4aa318fb7b0331262de2</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Mon, 11 Aug 2025 19:57:08 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>O espet&#xE1;culo que abriu o Encontro de Teatro Universit&#xE1;rio (ETU) de 2025, comemorando os seus dez anos, mostra em cena o processo de produ&#xE7;&#xE3;o de um bolo. A celebra&#xE7;&#xE3;o come&#xE7;a ali, na primeira noite do festival, com &#x201C;Savana glacial&#x201D;, da Cia. Gelo Seco. A pe&#xE7;a surgiu no segundo semestre de 2024, na disciplina Ateli&#xEA; II, que faz parte do curr&#xED;culo obrigat&#xF3;rio da gradua&#xE7;&#xE3;o em Artes C&#xEA;nicas da USP, e teve sua primeira abertura no TUSP Butant&#xE3;, ao final do ano. Com o desejo de continuidade, novos artistas se uniram ao grupo e fizeram diversas apresenta&#xE7;&#xF5;es no ano de 2025, como no Festival P&#xE9; Dentro, P&#xE9; Fora, na Casa Livre. Ao ETU, no Teatro Reynuncio Lima, no Instituto de Artes da Unesp, chegam como um dos trabalhos mais sofisticados do festival pela sua busca por linguagem e discurso que, apesar de suas contradi&#xE7;&#xF5;es, encontram-se em um caminho s&#xF3;lido.&#xA0;</p><p>A hist&#xF3;ria gira em torno de um casal heterossexual que acaba de mudar-se para um apartamento novo ap&#xF3;s um epis&#xF3;dio que fez a mulher perder a mem&#xF3;ria. Michel, escritor, n&#xE3;o permite que a esposa saia de casa, que passa seu tempo cozinhando bolos para vender. Ela carrega um bloco de notas com informa&#xE7;&#xF5;es escritas pelo marido; tudo o que ela precisa saber est&#xE1; l&#xE1;. Uma vizinha do pr&#xE9;dio, &#xC1;gatha, invade a vida do casal. Ela &#xE9; tagarela e cheia de energia, diferenciando-se rapidamente da sofistica&#xE7;&#xE3;o arrogante dos dois. Primeiro chega ao apartamento deles com o pretexto de ajudar Meg a recuperar sua mem&#xF3;ria e descobrir a verdade que o marido lhe est&#xE1; escondendo; depois, revela ter interesses amorosos por Michel. Savana Glacial &#xE9; uma dramaturgia de 2010 escrita por J&#xF4; Bilac em um processo colaborativo na Cia. F&#xED;sico de Teatro.&#xA0;</p><p>Na montagem da Cia. Gelo Seco, um dos grandes destaques &#xE9; a banda ao vivo formada por quatro instrumentistas e uma vocalista, que acompanha toda a pe&#xE7;a, sentados em uma arquibancada entre as duas pilhas de caixas de papel&#xE3;o do apartamento do casal. H&#xE1; uma mesa do escritor, com uma m&#xE1;quina de escrever e um telefone fixo - indica&#xE7;&#xF5;es da escolha do grupo pela temporalidade da hist&#xF3;ria, que n&#xE3;o &#xE9; definida na dramaturgia - e uma porta m&#xF3;vel do apartamento, que a cada cena cria enquadramentos e comicidades diferentes para a espacialidade ficcional das personagens. Quase tudo se passa dentro do apartamento. Por isso, um dos destaques da encena&#xE7;&#xE3;o &#xE9; a cena de Michel e &#xC1;gatha fumando na frente do pr&#xE9;dio, demarcado apenas por um guarda-chuva aberto e pela ilumina&#xE7;&#xE3;o baixa, que indica que est&#xE3;o, agora, em um lugar aberto.&#xA0;</p><p>Uma das espinhas dorsais do texto de J&#xF4; Bilac &#xE9; a reflex&#xE3;o sobre o desejo do artista: &#x201C;a boa fic&#xE7;&#xE3;o vem do desejo do escritor&#x201D;. Ridiculariza o virtuosismo do escritor, que escreve com dor, solid&#xE3;o e intelectualismo exagerado; continua a pensamento atrav&#xE9;s da hist&#xF3;ria de Simone, a amiga de &#xC1;gatha que foi presa ap&#xF3;s beijar um quadro em um museu por ter se sentido extremamente atra&#xED;da por ele; e encerra a pe&#xE7;a com o Michel n&#xE3;o percebendo suas pr&#xF3;prias contradi&#xE7;&#xF5;es em rela&#xE7;&#xE3;o ao casamento com Meg ao dizer que &#x201C;De t&#xE3;o sagrado, o amor vira pe&#xE7;a de museu, e cabe ao outro a contempla&#xE7;&#xE3;o apenas.&#x201D; J&#xF4; Bilac insiste em argumentar que o artista deve alimentar e perseguir os seus desejos, o que torna-se ainda mais importante ao acompanhar a programa&#xE7;&#xE3;o do ETU e deparar-se com grupos que n&#xE3;o parecem ter muita carga libidinal direcionada &#xE0; pesquisa da linguagem teatral, apesar do teatro ser universit&#xE1;rio.</p><p>Em cena, no entanto, o discurso &#xE9; oposto ao de J&#xF4; Bilac. A cenografia de uma casa desarrumada tem suas caixas ordenadas, limpas e sim&#xE9;tricas - at&#xE9; a caixa com vidro tem os cacos colados e arrumados com perfei&#xE7;&#xE3;o; o jazz que acompanha as emo&#xE7;&#xF5;es das personagens - de excelente qualidade - n&#xE3;o deixa de ser mel&#xF3;dico nem nos momentos mais violentos entre marido e mulher; os figurinos s&#xE3;o elegantes, limpos e bem-passados. Os momentos de loucura, que tamb&#xE9;m servem de transi&#xE7;&#xE3;o, com repeti&#xE7;&#xF5;es de movimentos e falas, flashbacks de cenas e mudan&#xE7;as bruscas de luz, n&#xE3;o descem do salto alto. Acontece o que parece ser uma ironia acidental, em que o texto cr&#xED;tica a encena&#xE7;&#xE3;o, que foi tecida com vis&#xED;vel esmero.</p><p>O recorte dramat&#xFA;rgico realizado pela Cia. Gelo Seco descomplexifica a trama. Na montagem, n&#xE3;o h&#xE1; d&#xFA;vidas de que Michel est&#xE1; abusando de Meg e escondendo a exist&#xEA;ncia de seu filho Max. &#xC1;gatha aparece como uma personagem simp&#xE1;tica e divertida, decidida a ajudar essa mulher a recuperar sua mem&#xF3;ria e que, ao longo da pe&#xE7;a, com uma ausente compreens&#xE3;o total de suas motiva&#xE7;&#xF5;es, trai Meg, aproveitando-se de sua condi&#xE7;&#xE3;o mental, e come&#xE7;a a desenvolver uma rela&#xE7;&#xE3;o com Michel. No texto, por&#xE9;m, a confiabilidade de &#xC1;gatha &#xE9; posta em d&#xFA;vida desde o primeiro momento, j&#xE1; que logo no pr&#xF3;logo ela apaixona-se por Michel andando na rua, fora de casa. &#xC9; uma das poucas intera&#xE7;&#xF5;es que acontecem fora do apartamento do casal. N&#xE3;o se sabe o quanto de verdade h&#xE1; em &#xC1;gatha - em um momento central da dramaturgia, que pede mais &#xEA;nfase na encena&#xE7;&#xE3;o, revela que teve um cachorro chamado Max, o mesmo nome do suposto filho dos vizinhos. Ela n&#xE3;o revela nenhuma informa&#xE7;&#xE3;o sobre o filho, mesmo ap&#xF3;s Meg pedir insistentemente.&#xA0;</p><p>No texto, nenhuma das personagens &#xE9; confi&#xE1;vel em nenhum momento. Meg por perder a mem&#xF3;ria, Michel por seus momentos de viol&#xEA;ncia e por ser posto em d&#xFA;vida por &#xC1;gatha, e &#xC1;gatha, por sua vez, por ter interesses controversos com o casal. Assim, Savana Glacial &#xE9; uma dramaturgia com camadas filos&#xF3;ficas que v&#xE3;o al&#xE9;m da viol&#xEA;ncia dom&#xE9;stica e aterrissam na parresia, a coragem da verdade singular, aquela que &#xE9; atravessada pelas fantasias dos sujeitos. &#x201C;Tudo aqui &#xE9; fic&#xE7;&#xE3;o&#x201D;. A quest&#xE3;o central n&#xE3;o parece ser as informa&#xE7;&#xF5;es ausentes ou confusas da mem&#xF3;ria da mulher, sen&#xE3;o a disputa de narrativa entre todas as personagens. Um escritor que, ao escrever a sua esposa, apaga a si mesmo; uma vizinha intrometida com s&#xFA;bito interesse em ajudar. &#x201C;O personagem em busca de um personagem em busca de um personagem&#x2026;&#x201D; Quem assiste a Cia. Gelo Seco encontra-se com certezas demais quando compara-se com quem l&#xEA; J&#xF4; Bilac.&#xA0;</p><p>Ao final, at&#xE9; os problemas de mem&#xF3;ria de Meg s&#xE3;o postos em d&#xFA;vida - no texto e tamb&#xE9;m na montagem. Ela conversa com Nuno, o motoboy que entrega os seus bolos, a &#xFA;nica rela&#xE7;&#xE3;o que tem que n&#xE3;o &#xE9; mediada pelo marido, e &#xE9; capaz de lembrar-se de tudo. O motoboy &#xE9; uma figura curiosa. Ele invade a cena em todo o transcurso da pe&#xE7;a, mudo. Observa as brigas e os beijos do casal, habita &#xE0;s vezes o apartamento, &#xE0;s vezes a imagina&#xE7;&#xE3;o de Meg. Ele &#xE9; a personagem que est&#xE1; fora do pr&#xE9;dio e da disputa de narrativas instaurada pelo tri&#xE2;ngulo amoroso. A pe&#xE7;a ainda tem uma camada essencial de metateatro, que &#xE9; ainda aprofundada pela Cia. Gelo Seco, especialmente pelos cacos de Ester Kariny, que faz a vizinha t&#xE3;o divertida a ponto de ser querida pelo p&#xFA;blico mesmo com as suas controv&#xE9;rsias. Michel em um momento diz que est&#xE3;o na cena seis, &#xC1;gatha cita o nome de outras pe&#xE7;as do Encontro de Teatro Universit&#xE1;rio ao nomear esmaltes, e ainda, quando conhece o apartamento, surpreende-se com a presen&#xE7;a da banda dentro da casa.&#xA0;</p><p>&#x201C;Savana glacial&#x201D; ficou marcado como um dos destaques do p&#xFA;blico, pelo o que consegui escutar pelos corredores e filas de espet&#xE1;culos da Unesp, da Usp e tamb&#xE9;m da Unicamp. A Cia. Gelo Seco consegue ser um dos poucos grupos que faz jus ao espa&#xE7;o da universidade e se prop&#xF5;e &#xE0; experimenta&#xE7;&#xE3;o e &#xE0; pesquisa, fazendo mudan&#xE7;as a cada apresenta&#xE7;&#xE3;o e tendo dedica&#xE7;&#xE3;o &#xE0; cada elemento da cena teatral. O grupo se apresenta nos dias 13 e 14 de agosto no Tusp Maria Ant&#xF4;nia, como parte da programa&#xE7;&#xE3;o da primeira Mostra Nacional de Teatro Universit&#xE1;rio. D&#xE1; vontade de ver no palco um gelo mais derretido, uma secura com mais fuma&#xE7;a, com menos eleg&#xE2;ncia e compostura e mais rock and roll. Os atores dizem repetidamente que &#x201C;Todo ato criativo &#xE9; uma declara&#xE7;&#xE3;o de guerra&#x201D;. Qual &#xE9; a guerra que a Cia. Gelo Seco quer declarar? </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Possibilidades políticas do drama]]></title><description><![CDATA[Este texto faz parte da iniciativa "Capivara Cítrica", uma colaboração da Cítrica Crítica com A Capivara Crítica e também está disponível no Instagram @capivaracritica. Quem escreve aqui é Danni Vianna, da Capivara.]]></description><link>https://citricacritica.com/possibilidades-politicas-do-drama/</link><guid isPermaLink="false">679f7f3a18fb7b0331262dcf</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Sun, 02 Feb 2025 14:26:51 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Seria a fic&#xE7;&#xE3;o menos verdadeira do que o documento, ou justamente atrav&#xE9;s dela encontramos as contradi&#xE7;&#xF5;es dif&#xED;ceis de encarar? O teatro chileno contempor&#xE2;neo parece resistir ao impulso de abandonar o drama, algo que se tornou comum em muitas produ&#xE7;&#xF5;es brasileiras, especialmente paulistanas. Enquanto por aqui h&#xE1; uma inclina&#xE7;&#xE3;o crescente ao teatro documental, que frequentemente aposta em expor o problema diretamente, Painecur, do grupo La Familia Teatro, reafirma o potencial da situa&#xE7;&#xE3;o ficcional para conduzir an&#xE1;lises sociais densas e contradit&#xF3;rias.</p><p>A obra apresenta um grupo de estudantes de Direito que se depara com o sacrif&#xED;cio ritual de uma crian&#xE7;a mapuche na d&#xE9;cada de 1960. O embate central n&#xE3;o est&#xE1; apenas na investiga&#xE7;&#xE3;o do fato em si, mas no confronto com as pr&#xF3;prias limita&#xE7;&#xF5;es &#xE9;ticas e culturais dos jovens protagonistas, cuja forma&#xE7;&#xE3;o jur&#xED;dica se choca com um universo ind&#xED;gena que n&#xE3;o compreendem plenamente.</p><p>Enquanto o teatro paulistano poderia abordar esse tema com artistas assumindo em cena suas d&#xFA;vidas e tens&#xF5;es, expondo diretamente seus conflitos diante da quest&#xE3;o ind&#xED;gena, Painecur opta pelo caminho da situa&#xE7;&#xE3;o dram&#xE1;tica: construir personagens complexos que, em sua pr&#xF3;pria contradi&#xE7;&#xE3;o, revelam os dilemas &#xE9;ticos e sociais em jogo. Essa escolha n&#xE3;o enfraquece a obra &#x2014; ao contr&#xE1;rio, permite uma explora&#xE7;&#xE3;o sentipensante das tens&#xF5;es contempor&#xE2;neas chilenas, com personagens que n&#xE3;o s&#xE3;o apenas figuras discursivas planas, mas sujeitos amb&#xED;guos que tentam desesperadamente entender e conviver com um &quot;outro&quot; que lhes escapa.</p><p>Se o teatro documental muitas vezes busca a exposi&#xE7;&#xE3;o discursiva do problema, Painecur sugere que a fic&#xE7;&#xE3;o ainda &#xE9; capaz de nos fazer sentir e pensar simultaneamente. Nesse sentido, reafirma a pot&#xEA;ncia do drama como um espa&#xE7;o privilegiado para lidar com as contradi&#xE7;&#xF5;es do presente, objetivando-as em uma situa&#xE7;&#xE3;o criada ficcionalmente a partir de documentos. Longe dos dramas e document&#xE1;rios moralizantes, La Familia construi uma situa&#xE7;&#xE3;o &#xE0; altura do documento, produzindo no espectador a necessidade de assumir posi&#xE7;&#xF5;es reais frente aos impasses vividos ficcionalmente.</p><p>Este texto faz parte da parceria &quot;Capivara C&#xED;trica&quot;, uma uni&#xE3;o da C&#xED;trica Cr&#xED;tica com A capivara cr&#xED;tica (@capivaracritica), que surgiu em meados de 2022 a partir de algumas perguntas: Qual o lugar dos estudantes universit&#xE1;rios junto &#xE0; produ&#xE7;&#xE3;o de cr&#xED;tica teatral hoje? H&#xE1; espa&#xE7;o para falar sobre cr&#xED;tica teatral em plataformas como o Instagram? Mais do que uma tentativa, a p&#xE1;gina &#xE9; uma procura por novos espa&#xE7;os cr&#xED;ticos a serem ocupados por dois estudantes universit&#xE1;rios de Artes C&#xEA;nicas na USP, B&#xE1;rbara Freitas e Daniel Vianna. B&#xE1; e Danni escrevem sempre duas cr&#xED;ticas sobre um mesmo espet&#xE1;culo. Neste texto, a perspectiva &#xE9; de Dani Vianna, da Capivara Cr&#xED;tica</p><p></p><p>Ficha t&#xE9;cnica:</p><p>&quot;Painecur&quot; - La Fam&#xED;lia Teatro</p><p>Dramaturgia e dire&#xE7;&#xE3;o: Eduardo Luna&#xA0;</p><p>Assistente de dire&#xE7;&#xE3;o: Nicole Morales&#xA0;</p><p>Assessoria Dramat&#xFA;rgica e Design Gr&#xE1;fico: Javier Alvarado&#xA0;</p><p>Elenco: Pamela Alarc&#xF3;n, Sebasti&#xE1;n Silva Rodr&#xED;guez, Alexis Moreno Venegas e Felipe Lagos&#xA0;</p><p>Desenho Teatral: Karla Rodr&#xED;guez e Javiera Severino</p><p>Composi&#xE7;&#xE3;o Musical: Daniel Cartes</p><p>Design de Som: Franco Pe&#xF1;aloza</p><p>Design e Produ&#xE7;&#xE3;o Audiovisual: Pelochuzo Producciones</p><p>Prepara&#xE7;&#xE3;o Atoral: Daniela Venegas</p><p>Realiza&#xE7;&#xE3;o Cenogr&#xE1;fica: Gian Reginato</p><p>Equipe de Produ&#xE7;&#xE3;o: Nicole Morales, Karla Rodr&#xED;guez e Javiera Severino</p><p>Produ&#xE7;&#xE3;o S&#xE3;o Paulo: Palipalan Arte e Cultura</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Tremer o chão de um país que não conhece o terremoto]]></title><description><![CDATA[Este texto faz parte da iniciativa "Capivara Cítrica", uma colaboração da Cítrica Crítica com A Capivara Crítica e também está disponível no Instagram @capivaracritica. Quem escreve aqui é Lena Giuliano, da Cítrica.]]></description><link>https://citricacritica.com/tremer-o-chao-de-um-pais-que-nao-conhece-o-terremoto/</link><guid isPermaLink="false">679d07b918fb7b0331262db4</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Sat, 01 Feb 2025 20:53:27 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>No dia 24 de janeiro de 2025, S&#xE3;o Paulo sofreu um cataclismo. Depois de dias de um calor que faz as peles grudarem e as roupas federem ao andar na rua por cinco minutos, o dil&#xFA;vio chegou na tarde da sexta-feira. A &#xE1;gua invadiu tudo. Desceu as escadas rolantes do metr&#xF4; e deixou as pessoas ilhadas nos corrim&#xF5;es, fez carros boiarem e tetos desabarem. E &#xE9; claro que mesmo depois do fim da &#xE1;gua, a chuva ainda continuava nas casas sem luz e nas avenidas lotadas de tr&#xE2;nsito. Segundo a Defesa Civil, que enviou alertas para os celulares de todos os paulistanos, foi a terceira maior chuva na cidade desde 1961. Foi nesse dia tamb&#xE9;m que estreou a pe&#xE7;a &#x201C;Painecur&#x201D; da companhia chilena La Familia Teatro no Tusp Butant&#xE3;, que apresentou por duas noites uma narrativa que se inicia com um cataclismo.&#xA0;</p><p>Na pe&#xE7;a, um grupo de estudantes de direito tem que fazer um trabalho para n&#xE3;o reprovar o semestre. O professor lhes d&#xE1; o caso mais dif&#xED;cil para resolver: um julgamento hist&#xF3;rico de 1960 com a senten&#xE7;a perdida. Ap&#xF3;s o grande terremoto de Vald&#xED;via, o maior sismo registrado na hist&#xF3;ria, uma comunidade mapuche sacrificou Jos&#xE9; Lu&#xED;s Painecur, uma crian&#xE7;a de sete anos de idade, com o objetivo de parar o cataclismo. A cena se passa toda dentro da sala de aula na madrugada anterior da entrega do trabalho. De quatro, tr&#xEA;s dos estudantes s&#xE3;o os piores alunos da sala: um deles &#xE9; um b&#xEA;bado que carrega latas de cerveja na mochila, outro &#xE9; um engomadinho que &#xE9; neto de um ministro do Pinochet e o terceiro &#xE9; um pai solo, que se desdobra entre a faculdade, o trabalho e a paternidade. Ele, Ernesto, n&#xE3;o tem o luxo, como os outros, de reprovar o semestre - at&#xE9; porque no Chile n&#xE3;o h&#xE1; faculdades gratuitas. Os tr&#xEA;s se unem &#xE0; Melissa, a melhor aluna da sala que ao final revela ser mapuche. &#xC9; ela que tr&#xE1;s a perspectiva ind&#xED;gena para o debate dos tr&#xEA;s estudantes brancos e perdidos com o caso, que parecem n&#xE3;o entender a profundidade do julgamento.&#xA0;</p><p>O sacrif&#xED;cio &#xE9; um costume comum em diversas culturas origin&#xE1;rias da Am&#xE9;rica do Sul. Os incas, por exemplo, sacrificavam e mumificavam mulheres e crian&#xE7;as para parar per&#xED;odos de secas e cat&#xE1;strofes naturais. O povo mapuche conviveu com os incas e foi o &#xFA;nico da regi&#xE3;o que n&#xE3;o foi conquistado pelo imp&#xE9;rio. No s&#xE9;culo XIX, no entanto, os mapuches perderam 95% do seu territ&#xF3;rio do lado chileno pela coloniza&#xE7;&#xE3;o. A quest&#xE3;o do sacrif&#xED;cio &#xE9; uma das grandes pautas pol&#xED;ticas em alguns pa&#xED;ses da Am&#xE9;rica do Sul. Na Bol&#xED;via, o governo de Evo Morales criou, em 2009, uma nova constitui&#xE7;&#xE3;o que estabeleceu o pa&#xED;s como um Estado plurinacional com dois sistemas judici&#xE1;rios: a justi&#xE7;a ordin&#xE1;ria e a justi&#xE7;a tradicional ind&#xED;gena. Assim, existem territ&#xF3;rios que t&#xEA;m tribunais com funcionamento pr&#xF3;prio, valorizando a ideologia das culturas que os ocupam. Curiosamente, o referendo que inaugurou a nova constitui&#xE7;&#xE3;o fez anivers&#xE1;rio no mesmo dia da montagem de &#x201C;Painecur&#x201D; em S&#xE3;o Paulo.&#xA0;</p><p>Em 2019, o Chile viveu uma explos&#xE3;o social com uma s&#xE9;rie de protestos que pediam por uma nova constitui&#xE7;&#xE3;o. Dentre as propostas, estava a ideia de estabelecer um sistema judici&#xE1;rio que d&#xEA; mais justi&#xE7;a aos povos ind&#xED;genas. Apesar da discuss&#xE3;o ter tomado grandes propor&#xE7;&#xF5;es em 2019, o grupo La Fam&#xED;lia estreou a pe&#xE7;a no ano anterior, antecipando os debates. O diretor e dramaturgo Eduardo Luna contou que apresentaram o espet&#xE1;culo em diversos teatros, muitas vezes com um p&#xFA;blico majoritariamente mapuche, como em um festival de teatro de Bariloche, onde apresentaram &#x201C;Painecur&#x201D; dias depois de um caso de homic&#xED;dio ind&#xED;gena na regi&#xE3;o. A pe&#xE7;a tamb&#xE9;m foi reconhecida com diversos pr&#xEA;mios, como o de Melhor Dramaturgia pelo Minist&#xE9;rio das Culturas, das Artes e do Patrim&#xF4;nio e viajou ao Brasil com apoio do Consulado General de Chile em S&#xE3;o Paulo. Apesar de tudo isso, Eduardo, ao final dos aplausos, disse que &#x201C;hoy fazemos teatro como se fosse a primeira vez&#x201D;.&#xA0;</p><p>Esse povo ind&#xED;gena se localiza em sua maioria no que hoje &#xE9; o sudoeste da Argentina e o centro-sul do Chile. Mas Melissa diz em um momento de &#x201C;Painecur&#x201D; que ela n&#xE3;o &#xE9; chilena, &#xE9; mapuche, e ainda diz que &#x201C;o chileno cria sua identidade com o que n&#xE3;o &#xE9;&#x201D;. Talvez seja uma reflex&#xE3;o que se aplica a todos os pa&#xED;ses que passaram por processos de coloniza&#xE7;&#xE3;o. Na&#xE7;&#xF5;es que, como o Brasil, tem uma maioria da popula&#xE7;&#xE3;o que faz parte da classe trabalhadora urbana e que n&#xE3;o se identifica completamente nem com a col&#xF4;nia e nem com os povos origin&#xE1;rios. Nesse sentido, h&#xE1; dois momentos do espet&#xE1;culo que chamam aten&#xE7;&#xE3;o: o momento em que um dos estudantes mostra o perfil do Facebook de uma pessoa mapuche de direita, usando como um exemplo de algu&#xE9;m respeit&#xE1;vel, e quando Ernesto canta uma m&#xFA;sica ind&#xED;gena em um palco vazio, onde o &#xFA;nico que chama a aten&#xE7;&#xE3;o &#xE9; o celular que segura na m&#xE3;o direita. La Fam&#xED;lia, ent&#xE3;o, veio ao Brasil e fez tremer o ch&#xE3;o de um pa&#xED;s que n&#xE3;o sofre terremotos. Refor&#xE7;ou as certezas do que n&#xE3;o somos e aumentou a d&#xFA;vida do que &#xE9; a identidade brasileira porque os cataclismos e os sacrif&#xED;cios s&#xE3;o diferentes, mas todos eles falam portunhol. </p><p>Este texto faz parte da parceria &quot;Capivara C&#xED;trica&quot;, uma uni&#xE3;o da C&#xED;trica Cr&#xED;tica com A capivara cr&#xED;tica (@capivaracritica), que surgiu em meados de 2022 a partir de algumas perguntas: Qual o lugar dos estudantes universit&#xE1;rios junto &#xE0; produ&#xE7;&#xE3;o de cr&#xED;tica teatral hoje? H&#xE1; espa&#xE7;o para falar sobre cr&#xED;tica teatral em plataformas como o Instagram? Mais do que uma tentativa, a p&#xE1;gina &#xE9; uma procura por novos espa&#xE7;os cr&#xED;ticos a serem ocupados por dois estudantes universit&#xE1;rios de Artes C&#xEA;nicas na USP, B&#xE1;rbara Freitas e Daniel Vianna. B&#xE1; e Danni escrevem sempre duas cr&#xED;ticas sobre um mesmo espet&#xE1;culo. Neste texto, a perspectiva &#xE9; de Lena Giuliano, da C&#xEC;trica Cr&#xED;tica.</p><p></p><p>Ficha t&#xE9;cnica:</p><p>&quot;Painecur&quot; - La Fam&#xED;lia Teatro</p><p>Dramaturgia e dire&#xE7;&#xE3;o: Eduardo Luna&#xA0;</p><p>Assistente de dire&#xE7;&#xE3;o: Nicole Morales&#xA0;</p><p>Assessoria Dramat&#xFA;rgica e Design Gr&#xE1;fico: Javier Alvarado&#xA0;</p><p>Elenco: Pamela Alarc&#xF3;n, Sebasti&#xE1;n Silva Rodr&#xED;guez, Alexis Moreno Venegas e Felipe Lagos&#xA0;</p><p>Desenho Teatral: Karla Rodr&#xED;guez e Javiera Severino</p><p>Composi&#xE7;&#xE3;o Musical: Daniel Cartes</p><p>Design de Som: Franco Pe&#xF1;aloza</p><p>Design e Produ&#xE7;&#xE3;o Audiovisual: Pelochuzo Producciones</p><p>Prepara&#xE7;&#xE3;o Atoral: Daniela Venegas</p><p>Realiza&#xE7;&#xE3;o Cenogr&#xE1;fica: Gian Reginato</p><p>Equipe de Produ&#xE7;&#xE3;o: Nicole Morales, Karla Rodr&#xED;guez e Javiera Severino</p><p>Produ&#xE7;&#xE3;o S&#xE3;o Paulo: Palipalan Arte e Cultura</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ode às noites piqueteiras das segundas-feiras]]></title><description><![CDATA[<p>&#x201C;Piquete &#xE9; quando a gente para o fluxo de trabalho e se mobiliza para pensar o trabalho&#x201D;. Essa &#xE9; a defini&#xE7;&#xE3;o que a Urgia traz em suas redes sociais para divulgar sua a&#xE7;&#xE3;o que ocorre &#xE0;s noites das segundas-feiras, em S&</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/ode-as-noites-piqueteiras-das-segundas-feiras/</link><guid isPermaLink="false">67908b0818fb7b0331262d9e</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Wed, 22 Jan 2025 06:08:51 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>&#x201C;Piquete &#xE9; quando a gente para o fluxo de trabalho e se mobiliza para pensar o trabalho&#x201D;. Essa &#xE9; a defini&#xE7;&#xE3;o que a Urgia traz em suas redes sociais para divulgar sua a&#xE7;&#xE3;o que ocorre &#xE0;s noites das segundas-feiras, em S&#xE3;o Paulo, desde a &#xFA;ltima semana de setembro de 2024, na sede da Corpo Rastreado. O grupo &#xE9; carioca, formado em 2023 por pessoas que escrevem para o teatro e se denomina como uma plataforma de a&#xE7;&#xF5;es em dramaturgia. &#x201C;Somos um grupo de gente, s&#xE3;o m&#xE3;os de carne que escrevem aqui. <em>No IAs allowed</em>.&#x201D; O piquete &#xE9; uma a&#xE7;&#xE3;o que se prop&#xF5;e a ler e debater dramaturgias que ainda est&#xE3;o em processo de escrita. Os primeiros aconteceram no Espa&#xE7;o Desterro, na Gl&#xF3;ria, no Rio de Janeiro. Na Vila Madalena j&#xE1; foram lidas e debatidas 12 dramaturgias, at&#xE9; o momento de escrita deste texto.</p><p>Funciona assim: os textos s&#xE3;o projetados. Uma roda de pessoas se forma em frente a ele. Algumas l&#xEA;em as personagens, outras escutam. Ningu&#xE9;m que j&#xE1; leu o texto anteriormente pode ler no piquete. Quem escreveu n&#xE3;o pode dizer nada antes de compartilhar o texto, apenas opinar na divis&#xE3;o de vozes. Depois, os autores s&#xE3;o os convidados a abrir o debate, compartilhando tamb&#xE9;m suas inten&#xE7;&#xF5;es, objetivos, d&#xFA;vidas e inseguran&#xE7;as. E depois come&#xE7;a uma discuss&#xE3;o t&#xED;mida, que costuma se tornar acalorada rapidamente. Algumas pessoas colecionam anota&#xE7;&#xF5;es em blocos de notas anal&#xF3;gicos e digitais, outras interrompem e mais outras s&#xE3;o interrompidas. Os corpos se inclinam nos pequenos banquinhos, os autores se apressam para registrar tudo o que &#xE9; dito. A leitura silenciosa e as falas barulhentas s&#xE3;o atravessadas pelo som satisfat&#xF3;rio da abertura de latinhas de cerveja. &#xC9; atrav&#xE9;s delas que a a&#xE7;&#xE3;o consegue um financiamento para a Mostra Urgia, que j&#xE1; aconteceu no Rio e que chega &#xE0; S&#xE3;o Paulo em mar&#xE7;o, como parte da programa&#xE7;&#xE3;o da mostra da cena <em>off </em>da cidade, a Farofa.&#xA0;</p><p>Apesar do tel&#xE3;o ser na verdade um len&#xE7;ol, ele n&#xE3;o carece de tecnologia e sofistica&#xE7;&#xE3;o. Os textos que nele pousam s&#xE3;o extremamente ricos para quem gosta de pensar teatro. Os temas e os formatos s&#xE3;o livres; j&#xE1; passaram di&#xE1;logos em pajub&#xE1;, debates sobre privatiza&#xE7;&#xE3;o de f&#xE1;bricas, imigra&#xE7;&#xE3;o japonesa e italiana no Brasil e transtornos alimentares, dentre muitos outros assuntos. J&#xE1; foram projetados textos dram&#xE1;ticos, com ou sem rubricas; grandes narrativas e tamb&#xE9;m curtos programas performativos. Frequentar o piquete &#xE9; fazer parte do grupo de estudos mais divertido e instigante para quem quer se propor a refletir sobre os limites da dramaturgia. Alguns textos trazem a continuidade de anos de pesquisa, outros se destacam por ter investiga&#xE7;&#xF5;es frescas e rec&#xE9;m-iniciadas; alguns s&#xE3;o de pessoas que dedicam todo seu tempo no teatro a escrever, outros de pessoas que escolhem tamb&#xE9;m se dedicar &#xE0; atua&#xE7;&#xE3;o, dire&#xE7;&#xE3;o e mais in&#xFA;meras fun&#xE7;&#xF5;es; alguns s&#xE3;o escritos em um processo em comunh&#xE3;o com outros artistas, outros em solid&#xE3;o, que &#xE9; exatamente com que o piquete procura romper.&#xA0;</p><p>A a&#xE7;&#xE3;o da plataforma Urgia coletiviza o trabalho da dramaturgia e permite que os textos sejam dissecados, rasgados e analisados por in&#xFA;meras pessoas que, escritores ou n&#xE3;o, espectadores de teatro ou n&#xE3;o, familiarizados ou n&#xE3;o com o terra&#xE7;o da Corpo Rastreado, decidiram sair de suas casas em uma segunda &#xE0; noite para conversar sobre dramaturgia. Existe uma poesia enorme em um texto que &#xE9; lido pela primeira vez em coletivo por vozes curiosas e ouvidos generosos. O &#xFA;nico fator comum entre os textos &#xE9; que eles est&#xE3;o todos sendo produzidos no momento presente em S&#xE3;o Paulo. Todos eles refletem alguma urg&#xEA;ncia da cidade de hoje e carregam a esperan&#xE7;a de um futuro em que s&#xE3;o finalizados e encenados nos mais lindos teatros. O piquete &#xE9; um an&#xFA;ncio do que vai vir nos palcos, &#xE9; uma possibilidade de acompanhar a germina&#xE7;&#xE3;o das pesquisas dos artistas de teatro da cidade. &#xC9; como estar recebendo spoilers dos Guia Off que est&#xE3;o por vir.&#xA0;</p><p>O piquete tamb&#xE9;m cria um outro imagin&#xE1;rio para o trabalho da dramaturgia. O dramaturgo &#xE9; imaginado em sua maioria das vezes no masculino, branco, com barba grisalha, em uma grande mesa de madeira, contemplando uma paisagem inspiradora e escrevendo frases brilhantes sem parar. Esse dramaturgo n&#xE3;o precisa de um coletivo para opinar e debater a sua obra, apenas um &#xFA;nico editor basta. Esse dramaturgo sofre em meio a livros de te&#xF3;ricos cuja apar&#xEA;ncia se assemelha &#xE0; dele e n&#xE3;o imagina que poderia fazer esse trabalho em outra posi&#xE7;&#xE3;o que n&#xE3;o sentado em sua chique cadeira de couro. E tamb&#xE9;m n&#xE3;o se encaixaria na atmosfera alegre instaurada no piquete, regado a risadas e cerveja, ou na est&#xE9;tica dos cartazes de divulga&#xE7;&#xE3;o, inspirado no &#x201C;Brat&#x201D;, de Charli XCX, &#xE1;lbum de pop eletr&#xF4;nico que marcou a cultura pop e LGBT em 2024. O piquete agora vira tema de pesquisa da tese de mestrado na UFRJ de Lane Lopes, uma das fundadoras da Urgia. Ela &#xE9; uma mulher jovem, engra&#xE7;ada, fiel &#xE0; sua camisa do Volta&#xE7;o e costuma ser a pessoa que mais se encanta com os textos apresentados.&#xA0;</p><p>Assim como ela, a maioria dos dramaturgos e dramaturgas que levaram seus textos ao piquete tamb&#xE9;m n&#xE3;o combinam com esse padr&#xE3;o do nosso dramaturgo imagin&#xE1;rio. O mais legal &#xE9; que a a&#xE7;&#xE3;o funciona sem curadoria. Quem tiver interesse em participar, pode enviar uma mensagem nas redes sociais e possivelmente ser convidado. A &#xFA;nica prioridade &#xE9; para quem j&#xE1; foi a algum piquete anteriormente. Al&#xE9;m de Lane, h&#xE1; outros personagens que frequentam e recebem os leitores/espectadores/debatedores. Diego Cardoso, dramaturgo que teve seu texto exposto no tel&#xE3;o da Urgia e que tamb&#xE9;m criou diversos podcasts que pensam dramaturgia; amilton de azevedo, cr&#xED;tico do ru&#xED;na acesa, casa cr&#xED;tica que integra o projeto Arquip&#xE9;lago, &#xE9; quem costuma ler as rubricas e comanda o computador e boa parte da produ&#xE7;&#xE3;o; e Clara Coutinho, ou Kakau, uma advogada que come&#xE7;ou a adentrar no mundo do teatro junto com os piquetes e que j&#xE1; prestou assist&#xEA;ncia jur&#xED;dica para in&#xFA;meros dramaturgos preocupados com quest&#xF5;es de seus textos e que nenhum artista ali sabia responder. Ou seja, para comparecer nas segundas-feiras, n&#xE3;o &#xE9; obrigat&#xF3;rio nem ser f&#xE3; de teatro, nem escrever teatro. Mas se quiser pode.</p><p>piquete: leitura de dramaturgias em processo</p><p>Plataforma urgia + ru&#xED;na acesa + projeto arquip&#xE9;lago</p><p>Segundas-feiras, chegada &#xE0;s 19h, in&#xED;cio &#xE0;s 19h30</p><p>Rua Lira, 74 - Vila Madalena. No terra&#xE7;o. Provavelmente tem que tocar a campainha!</p><p>Mais informa&#xE7;&#xF5;es no Instagram: @u_r_g_i_a</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crítica da espectadora fracassada]]></title><description><![CDATA[<p>Se voc&#xEA; chegou at&#xE9; este texto, &#xE9; prov&#xE1;vel que esteja inserido em c&#xED;rculos sociais classificados como progressistas e j&#xE1; tenha vivido alguma situa&#xE7;&#xE3;o desconfort&#xE1;vel com um homem h&#xE9;tero da mesma classifica&#xE7;&#xE3;o. Talvez voc&</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/untitled/</link><guid isPermaLink="false">67075bf2b7baf50c2bfd416c</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Thu, 10 Oct 2024 04:49:01 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Se voc&#xEA; chegou at&#xE9; este texto, &#xE9; prov&#xE1;vel que esteja inserido em c&#xED;rculos sociais classificados como progressistas e j&#xE1; tenha vivido alguma situa&#xE7;&#xE3;o desconfort&#xE1;vel com um homem h&#xE9;tero da mesma classifica&#xE7;&#xE3;o. Talvez voc&#xEA; j&#xE1; tenha sido assediada por algum diretor de teatro que precisava muito ver seu corpo para entender se voc&#xEA; seria ideal para o papel, ou tenha recebido likes em fotos de cinco anos atr&#xE1;s por parte de atores casados por ter cumprimentado eles com &#x201C;simpatia demais&#x201D; depois de assistir uma pe&#xE7;a que gostou, ou ainda ter recebido emails suspeitos de madrugada de professores universit&#xE1;rios que no mesmo dia compartilharam posts feministas. N&#xE3;o, esta n&#xE3;o &#xE9; uma cr&#xF4;nica da Carrie Bradshaw. Este &#xE9; um texto sobre &#x201C;Eu amo Chris: uma cole&#xE7;&#xE3;o de fracassos&#x201D;, que talvez n&#xE3;o existisse se o termo &#x201C;esquerdomacho&#x201D; fosse popular na Nova York de 1997 e a autora do livro que inspirou o espet&#xE1;culo, Chris Kraus, estivesse avisada sobre os perigos de se envolver com esse tipo de homem.&#xA0;</p><p>A montagem do Coletivo Dodecaf&#xF4;nico utiliza o livro &#x201C;Eu amo Dick&#x201D;, de Chris Kraus, como dispositivo para realizar procedimentos, como conta Ver&#xF4;nica Veloso, a diretora do espet&#xE1;culo, que performa em uma das cenas. O livro narra a rela&#xE7;&#xE3;o entre Chris, uma cineasta experimental sem muito sucesso, e Sylv&#xE8;re, seu marido, um professor universit&#xE1;rio que levou o pensamento p&#xF3;s-estruturalista franc&#xEA;s para os Estados Unidos. Os dois conhecem um cr&#xED;tico cultural, Dick, em um jantar, e se envolvem em uma obsess&#xE3;o amorosa. Em um tom entre admira&#xE7;&#xE3;o intelectual e desejo er&#xF3;tico, os dois come&#xE7;am a escrever-lhe cartas frequentemente, que seriam acessadas ao destinat&#xE1;rio apenas em uma performance teatral em que colariam todos os pap&#xE9;is em sua casa, em seu carro e em seu jardim de cactos. A rela&#xE7;&#xE3;o sai dos envelopes e torna-se real, dentro do que pode-se chamar de realidade. O Dick que queriam ainda era uma fic&#xE7;&#xE3;o inventada na cabe&#xE7;a do casal. Dick escreve apenas uma carta. Endere&#xE7;a-a &#xE0; Sylv&#xE8;re e escreve o nome de Chris errado.&#xA0;</p><p>As mulheres do Dodecaf&#xF4;nico identificam-se com Chris Kraus. Al&#xE9;m de serem em sua maioria mulheres brancas de quarenta anos, o mesmo perfil da escritora de cartas e de livros, elas tamb&#xE9;m j&#xE1; tiveram suas cria&#xE7;&#xF5;es como artistas resumidas a &#x201C;femininas&#x201D;. &#x201C;Voc&#xEA;s j&#xE1; assistiram a alguma pe&#xE7;a de teatro masculina?&#x201D;, perguntam. Eu, particularmente, j&#xE1; assisti v&#xE1;rias. Ningu&#xE9;m avisa isso no programa dos espet&#xE1;culos. O livro ganhou um posf&#xE1;cio que analisa a obra de forma justa e a classifica como &#x201C;fic&#xE7;&#xE3;o te&#xF3;rica&#x201D;. Alguns textos citados no livro, por exemplo, chamam-se &#x201C;Fenomenologia da garota solit&#xE1;ria&#x201D; ou &#x201C;O conto da vadia burra&#x201D;. O coletivo gosta do nome do livro, que traz o &#x201C;Dick&#x201D; em tr&#xEA;s significados: como nome, como &#x201C;babaca&#x201D; ou como &#x201C;pinto&#x201D;. &#x201C;Ela coloca o pinto na boca de todo mundo&#x201D;. Elas, no entanto, preferem homenagear Chris em seu t&#xED;tulo. A conclus&#xE3;o do Dodecaf&#xF4;nico &#xE9; que a mulher &#xE9; usada como moeda de troca at&#xE9; nos c&#xED;rculos mais progressistas. E n&#xE3;o s&#xF3; isso: quando se nasce mulher, fracassar &#xE9; uma condi&#xE7;&#xE3;o.&#xA0;</p><p>O fracasso aparece em todas as &#xE1;reas da vida de uma mulher. Ver&#xF4;nica entra em cena primeiro para fazer um &#x201C;mansplaining&#x201D; e contextualizar a pe&#xE7;a, e depois para relatar todos os fracassos profissionais do grupo. Todos os projetos que escreveram e n&#xE3;o foram contemplados ao longo de dez anos. Ela assume uma postura da professora universit&#xE1;ria que &#xE9; e d&#xE1; uma aula expositiva no palco. Quando ela cita seu doutorado como parte da cole&#xE7;&#xE3;o de fracassos, ouvi um homem do p&#xFA;blico dizer: &#x201C;Excelente!&#x201D;. Talvez a carreira acad&#xEA;mica seja o recorte das frustra&#xE7;&#xF5;es com que os homens cis que frequentam o Tusp Maria Ant&#xF4;nia mais se identificam. O fracasso amoroso, por outro lado, aparece em todas as outras atrizes. Todas elas s&#xE3;o Chris Kraus, todas elas brincam com cartas endere&#xE7;adas ao Dick e todas elas encenam momentos primeiro entre Chris e Sylv&#xE8;re, depois entre Chris e Dick.&#xA0;</p><p>As cenas s&#xE3;o rememoradas coletivamente e filmadas por uma c&#xE2;mera de dentro do palco operada por uma das atrizes, Beatriz Belintani. Tudo o que acontece tamb&#xE9;m &#xE9; visto por outro &#xE2;ngulo em uma proje&#xE7;&#xE3;o feita sobre uma parede de caixas de papel&#xE3;o: &#x201C;O passado termina numa caixa&#x201D;. Est&#xE3;o em um apartamento, cen&#xE1;rio de todas as hist&#xF3;rias do tri&#xE2;ngulo amoroso e que em cenas anteriores funcionou como um museu. O p&#xFA;blico entra no teatro e dirige-se ao palco, incentivado a conversar com as personagens - cada Chris conta uma hist&#xF3;ria - e a tocar em todos os objetos. Uma m&#xE1;quina de datilografar, ma&#xE7;os de cigarro, fotografias com uma silhueta misteriosa, um sof&#xE1; verde, plantas, tapetes, livros, rem&#xE9;dios. Tudo tem etiquetas e descri&#xE7;&#xF5;es breves de como o objeto chegou ali. &#xC9; s&#xF3; depois de conhecer, tocar e interagir com as Chrises que o p&#xFA;blico senta-se em sil&#xEA;ncio para ouvi-las.</p><p>Vemos em centenas de cartas endere&#xE7;adas &#xE0; Dick que aparecem ao longo do espet&#xE1;culo que o fracasso &#xE9; rom&#xE2;ntico, mas ele &#xE9;, sobretudo, sexual. As Chrises relatam as dificuldades para conseguir um sexo casual: primeiro, encontrar um cara legal seguindo toda a burocracia digital contempor&#xE2;nea; depois, os cuidados para n&#xE3;o se colocar em perigo; e, por fim, o equil&#xED;brio na manh&#xE3; seguinte para falar &#x201C;obrigada, at&#xE9; nunca mais&#x201D; sem ser julgada como uma escrota. Nas cenas de sexo, as mulheres interagem com a c&#xE2;mera, com v&#xE1;rios objetos e com o v&#xED;deo ao vivo do &#xFA;nico ator homem, que &#xE9; filmado no camarim. As cenas de sexo, em &#x201C;Eu amo Chris&#x201D;, s&#xE3;o protagonizadas e dirigidas &#xE0; mulheres. No entanto, depois dos orgasmos, a pe&#xE7;a diz que mesmo em meio a uma cole&#xE7;&#xE3;o de fracassos, ainda h&#xE1; esperan&#xE7;a. &#x201C;O fracasso &#xE9; uma esquina&#x201D;. E o p&#xFA;blico se divide em quatro. Cada pessoa deve seguir uma das atrizes em um trajeto diferente, ouvindo textos e m&#xFA;sicas em fones de ouvido.&#xA0;</p><p>O que &#xE9; dito dentro do apartamento sai para a rua. &#x201C;A cidade que atravesso &#xE9; a mesma que me atravessa&#x201D;. Ouvimos de forma &#xED;ntima textos repetidos e expandidos das Chrises em audiotours, que s&#xE3;o colagens que combinam uma narrativa sonora pr&#xE9;-parada com as aleatoriedades da cidade. Vi, por exemplo, Michelle, travesti com quem conversei antes de entrar para o espet&#xE1;culo e que dorme na frente do teatro junto a seu cachorro, Zeus. Quais fracassos ela poderia agregar na cole&#xE7;&#xE3;o do Dodecaf&#xF4;nico? O p&#xFA;blico tamb&#xE9;m performa junto com as atrizes nesse formato; cria-se uma parede invis&#xED;vel entre quem ouve o &#xE1;udio e quem passa na rua com olhos curiosos. De repente, somos todos Chris. Todas fracassadas. As atrizes e o p&#xFA;blico voltam a encontrar-se em frente a um um carro completamente coberto com cartas endere&#xE7;adas &#xE0; Dick e, em um final cinematogr&#xE1;fico, as Chrises v&#xE3;o embora dirigindo. Viram a esquina. &#xC9; um spoiler? Pode contar? Fracassei. Entra para a minha cole&#xE7;&#xE3;o particular.&#xA0;</p><p>Ficha t&#xE9;cnica:</p><p>&#x201C;Eu amo Chris&#x201D;</p><p>Encena&#xE7;&#xE3;o: Ver&#xF4;nica Veloso</p><p>Elenco: Beatriz Belintani, Biagio Pecorelli, Clarissa Kiste, Katia Lazarini e Ol&#xED;via Niculitcheff</p><p>Performer v&#xED;deo: Ier&#xEA; Pap&#xE1;&#xA0;</p><p>Dramaturgia: Carla Kinzo&#xA0;</p><p>Dramaturgismo: Gabriela Cordaro&#xA0;</p><p>Cen&#xE1;rio: Helo&#xED;sa Sousa e Luiza Saad&#xA0;</p><p>Adapta&#xE7;&#xE3;o do cen&#xE1;rio: Jenn Cardoso&#xA0;</p><p>Contrarregragem: Jenn Cardoso</p><p>Figurino: Helo&#xED;sa Sousa e Jorge Wakabara&#xA0;</p><p>Ilumina&#xE7;&#xE3;o: Aline Santini e Gabriela Ciancio&#xA0;</p><p>Opera&#xE7;&#xE3;o de Luz: Marina Gatti&#xA0;</p><p>Videomapping: Soraia Costa&#xA0;</p><p>Opera&#xE7;&#xE3;o de som e videomapping: Larissa Siqueira</p><p>Design Gr&#xE1;fico: Ier&#xEA; Pap&#xE1;</p><p>Edi&#xE7;&#xE3;o de Audiotours: Ier&#xEA; Pap&#xE1;</p><p>Produ&#xE7;&#xE3;o Geral: Coletivo Teatro Dodecaf&#xF4;nico e J&#xFA;nior Cecon &#x2013; Plural Produ&#xE7;&#xF5;es Art&#xED;sticas e Culturais</p><p>Assistente de produ&#xE7;&#xE3;o: Fl&#xE1;via Santos</p><p>Colaboraram no processo: Helo&#xED;sa Sousa, Hideo Kushiyama e Paulina Caon</p><p>At&#xE9; dia 27/10 no Tusp Maria Ant&#xF4;nia. De quinta a s&#xE1;bado &#xE0;s 21h, domingos &#xE0;s 19h. </p><p>A produ&#xE7;&#xE3;o pede que o p&#xFA;blico leve o celular carregado e fones de ouvido.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["Out of the blue" fui ao teatro em Zagreb]]></title><description><![CDATA[<p>Assistir uma pe&#xE7;a em outro pa&#xED;s &#xE9; uma experi&#xEA;ncia duplamente cultural. &#xC9; cultural, claro, porque &#xE9; uma pe&#xE7;a de teatro; depois, por observar o comportamento dos espectadores e tudo o que envolve a produ&#xE7;&#xE3;o em outro pa&#xED;s.</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/out-of-the-blue-fui-ao-teatro-em-zagreb/</link><guid isPermaLink="false">66f2dda8b7baf50c2bfd4148</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Tue, 24 Sep 2024 15:56:54 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Assistir uma pe&#xE7;a em outro pa&#xED;s &#xE9; uma experi&#xEA;ncia duplamente cultural. &#xC9; cultural, claro, porque &#xE9; uma pe&#xE7;a de teatro; depois, por observar o comportamento dos espectadores e tudo o que envolve a produ&#xE7;&#xE3;o em outro pa&#xED;s. &#xC9; tamb&#xE9;m um pouco perigoso ser turista porque costumamos analisar todos os comportamentos que vimos nos poucos dias que vivemos naquele pa&#xED;s e coloc&#xE1;-los como regra. Por exemplo, se algum estrangeiro fosse a S&#xE3;o Paulo e assistisse &#x201C;Bacantes&#x201D; do Teatro Oficina, ele poderia generalizar erroneamente todo o teatro brasileiro com base naquela experi&#xEA;ncia. Imagina se algum estrangeiro visitou S&#xE3;o Paulo e casualmente entrou em um teatro para assistir &#x201C;A hist&#xF3;ria do olho&#x201D;, de Jana&#xED;na Leite, pensando que era mais uma pe&#xE7;a do repert&#xF3;rio cl&#xE1;ssico do pa&#xED;s? Essa vers&#xE3;o do Brasil deve ser muito mais divertida.</p><p>Na &#xFA;ltima quarta-feira, dia 18 de setembro, fui ao teatro em Zagreb e respondi uma pergunta que nunca me tinha feito: como os croatas assistem teatro? Estou vivendo um m&#xEA;s em uma resid&#xEA;ncia art&#xED;stica em Klanjec, uma pequena cidade entre as montanhas que fica a uma hora de carro da capital - uma experi&#xEA;ncia que veio de forma completamente inesperada, repentina, &#x201C;Out of the blue&#x201D; na minha vida. Eu n&#xE3;o sabia nada da Cro&#xE1;cia al&#xE9;m de que era onde gravavam Game Of Thrones - e descobri ontem que Mamma Mia tamb&#xE9;m foi gravado aqui. E eu nunca assisti um epis&#xF3;dio de Game of Thrones. Dunja e Jerko, os donos do centro cultural onde estou morando e trabalhando, a Kuca Klajn, e os coordenadores da resid&#xEA;ncia art&#xED;stica, levaram n&#xF3;s, os tr&#xEA;s residentes, para assistir a pe&#xE7;a. &#x201C;<em>Family trip&#x201D;.</em>&#xA0;</p><p>Assim que chegamos, j&#xE1; percebi que eles conheciam todos os trabalhadores envolvidos com a pe&#xE7;a, assim como grande parte do p&#xFA;blico. &#x201C;&#xC9; uma cidade pequena&#x201D;, disse Dunja. E &#xE9; mesmo. Na Cro&#xE1;cia inteira moram tr&#xEA;s milh&#xF5;es de pessoas, o que &#xE9; menos que a popula&#xE7;&#xE3;o da zona leste de S&#xE3;o Paulo, de acordo com dados de 2022 do IBGE. Mas n&#xE3;o era s&#xF3; pelas estat&#xED;sticas populacionais que eles conheciam todo mundo, e nem porque s&#xE3;o divertidos, amig&#xE1;veis e populares. Era uma noite importante para a cena art&#xED;stica de Zagreb. A pe&#xE7;a era uma produ&#xE7;&#xE3;o francesa de &#x201C;circo contempor&#xE2;neo&#x201D;. &#x201C;Out of the blue&#x201D; &#xE9; uma pe&#xE7;a que ficou duas noites em cartaz aqui e que &#xE9; formada basicamente por dois atores dentro de uma piscina. Era algo novo e todos os trabalhadores da cultura queriam prestigiar. Mas fui descobrir apenas na volta para casa que a noite tamb&#xE9;m tinha sua import&#xE2;ncia por motivos que n&#xE3;o estavam no palco.</p><p>Na plateia, crian&#xE7;as exageradamente loiras passavam correndo na frente do palco. Um homem, e n&#xE3;o uma mulher, saiu correndo em dire&#xE7;&#xE3;o ao banheiro no meio do espet&#xE1;culo com um beb&#xEA; nos bra&#xE7;os que tinha a fralda cheia. De novo: n&#xE3;o podemos generalizar o comportamento de todos os homens croatas com base em um s&#xF3;. Uma senhora de cabelo vermelho anotava coisas em um caderno. Ao final, curiosa, perguntei se ela escreveria sobre a pe&#xE7;a, porque gostaria de ler. Ela me disse que escreveria, mas s&#xF3; para ela. Ningu&#xE9;m leria. Eu passo facilmente como croata por ser muito branca e ter cabelo vermelho, moda que talvez tenha sido iniciada por Dua Lipa, que &#xE9; da Alb&#xE2;nia, pa&#xED;s da regi&#xE3;o. Algumas pessoas me abordaram falando em croata, o que me causa um r&#xE1;pido desespero. &#x201C;<em>Sorry, I don&#x2019;t speak Croatian</em>&#x201D;. Apesar de estar h&#xE1; vinte dias ouvindo o idioma, que tem o mesmo ritmo cantado do italiano, s&#xF3; aprendi a falar svila, que significa cetim e &#xE9; tamb&#xE9;m o nome da cachorra da casa, e pivo, que &#xE9; cerveja. Apenas o essencial.&#xA0;</p><p>Mas sobre o que &#xE9; a pe&#xE7;a? Sobre nada. Para mim, pode ser uma tela em branco. O material &#xE9; t&#xE3;o prim&#xE1;rio - a &#xE1;gua - que &#xE9; inevit&#xE1;vel ter uma rela&#xE7;&#xE3;o profunda com ele e identificar-se de alguma forma. Aqui em casa - na minha casa croata - discutimos bastante sobre o espet&#xE1;culo. Conversamos sobre experi&#xEA;ncias pessoais de quase morte com &#xE1;gua, sobre medo da &#xE1;gua, sobre ter hobbies com &#xE1;gua, como &#xE9; o caso do mergulho, sobre ver a &#xE1;gua somente como algo utilit&#xE1;rio e ser incapaz de conseguir se divertir, sobre viver perto ou longe do mar. Na verdade, somos 60% &#xE1;gua. &#x201C;Um pepino com ansiedade&#x201D;, como disse Dunja. Antes de nascer, estamos imersos dentro da &#xE1;gua e quando nascemos aprendemos a n&#xE3;o estar mais. A viver no seco.&#xA0;</p><p>A estrutura dramat&#xFA;rgica, &#xE0; primeira vista, pode parecer com a tradicional do circo: uma colagem de cenas de demonstra&#xE7;&#xF5;es de habilidades. No entanto, se voc&#xEA; &#xE9; como eu e infelizmente faz parte da tradi&#xE7;&#xE3;o europeia iluminista que quer buscar sentido em absolutamente tudo, voc&#xEA; tamb&#xE9;m pode se contentar. Na primeira cena, um dos dois atores fica quatro minutos e quarenta segundos contados no rel&#xF3;gio debaixo d&#x2019;&#xE1;gua. Em seguida, ele relata - em ingl&#xEA;s, <em>thank you very much </em>- uma hist&#xF3;ria de quando tinha quatro anos e ficou preso dentro de uma represa debaixo de uma pedra. Foi uma experi&#xEA;ncia de quase morte. Ele mesmo n&#xE3;o se lembra dessa hist&#xF3;ria, mas seus pais dizem que ele nunca mais foi o mesmo.&#xA0;</p><p>Podemos facilmente associar esse relato, praticamente o &#xFA;nico texto de todo o espet&#xE1;culo, com o t&#xED;tulo. &#x201C;Out of the blue&#x201D;, al&#xE9;m de fazer a clara refer&#xEA;ncia &#xE0; cor da piscina, tamb&#xE9;m &#xE9; uma express&#xE3;o que significa algo que aconteceu inesperadamente. Talvez toda a pe&#xE7;a e as brincadeiras debaixo d&#x2019;&#xE1;gua sejam uma tentativa de resgatar essa mem&#xF3;ria ou de superar de alguma forma esse trauma que - como ele mesmo diz - ainda est&#xE1; preso no seu corpo. Al&#xE9;m desse relato que amarra a dramaturgia, cada cena cria m&#xFA;ltiplas imagens que podem ter uma interpreta&#xE7;&#xE3;o por si s&#xF3;: vemos dois homens de cal&#xE7;a e camiseta tentando caminhar debaixo d&#x2019;&#xE1;gua, depois os dois deitados respirando e formando bolhas, tamb&#xE9;m um deles nadando com uma cauda dourada de sereia; o outro, em seguida, tentando escapar com uma corda envolto em um jogo de luz que o leva para o oceano profundo e, por fim, os dois nadando em meio a uma imensid&#xE3;o de pl&#xE1;stico. O fim da pe&#xE7;a foi como um corte lacaniano: no momento em que eu estava mais imersa, acabou. Aqui na regi&#xE3;o, o que eu associei ao psicanalista franc&#xEA;s costuma ser chamado de &#x201C;corte s&#xE9;rvio&#x201D;, uma mudan&#xE7;a abrupta de cenas que fazia parte da tend&#xEA;ncia da chamada Onda Negra, um movimento cinematogr&#xE1;fico iugoslavo das d&#xE9;cadas de sessenta e setenta. Entendi que seria a vers&#xE3;o deles do Cinema Novo.</p><p>O espet&#xE1;culo, no entanto, pode muito bem ser apreciado sem nenhuma necessidade de busca de sentido ou de l&#xF3;gica cartesiana. Afinal, como disse acima, cada um tem suas pr&#xF3;prias hist&#xF3;rias e sua pr&#xF3;pria rela&#xE7;&#xE3;o &#xED;ntima com a &#xE1;gua. A dramaturgia tamb&#xE9;m cria lacunas para os espectadores. A ideia, no fim, &#xE9; muito simples. Todo mundo j&#xE1; mergulhou alguma vez na vida e percebeu como o corpo &#xE9; obrigado a entrar em outro estado, a descobrir outras movimenta&#xE7;&#xF5;es. A pele altera sua textura, o cabelo se move de forma diferente, os pulm&#xF5;es param de trabalhar. Mas poucas pessoas pensaram em levar isso para o palco. Pessoalmente, n&#xE3;o tenho outra refer&#xEA;ncia de pe&#xE7;a que se passa dentro de uma piscina, por isso consigo relacionar apenas com teatralidades liminares, como &#xE9; o caso do nado sincronizado. O espet&#xE1;culo, inclusive, pode ser visto tamb&#xE9;m apenas como algo belo no sentido mais tradicional da palavra. O circo familiar, aquele que viaja pelos interiores do pa&#xED;s em grandes caminh&#xF5;es, busca agradar ao p&#xFA;blico. Servir bem para poder servir sempre. O que me leva a pensar na express&#xE3;o &#x201C;circo contempor&#xE2;neo&#x201D; que classifica &#x201C;Out of the blue&#x201D; e que tamb&#xE9;m me traz certo inc&#xF4;modo.&#xA0;</p><p>O &#x201C;circo contempor&#xE2;neo&#x201D; &#xE9; associado &#xE0;s produ&#xE7;&#xF5;es que saem majoritariamente das escolas de circo e que s&#xE3;o muitas vezes realizadas em teatros ou em outros espa&#xE7;os e n&#xE3;o mais em lonas coloridas. No entanto, existem muitas fam&#xED;lias de tradi&#xE7;&#xE3;o circense que vivem e sobrevivem do circo nos interiores do pa&#xED;s, e que tamb&#xE9;m est&#xE3;o se reinventando &#xE0; sua pr&#xF3;pria maneira, e produzindo mudan&#xE7;as na linguagem circense na contemporaneidade. Para o p&#xFA;blico desse tipo de circo, talvez seja mais cativante assistir uma cena entre Elsa e Anna, as princesas do filme &#x201C;Frozen&#x201D;, do que ver dois atores nadando e brincando em uma piscina durante uma hora. E a&#xED; temos material para mil outras discuss&#xF5;es que envolvem, como sempre, os embates entre o capital e a arte e todas as fronteiras entre o que &#xE9; cultura e o que &#xE9; entretenimento.</p><p>&#x201C;Out of the blue&#x201D; pode se enquadrar como um espet&#xE1;culo circense porque, na ess&#xEA;ncia, tudo &#xE9; sobre demonstra&#xE7;&#xE3;o de habilidades e o dom&#xED;nio dos atuantes sobre o material trabalhado. &#xC9; vis&#xED;vel que existiu um estudo muito grande sobre a f&#xED;sica da coisa. O trabalho com a luz e o som &#xE9; extremamente sofisticado e altera radicalmente, mas sem ser abrupto, a atmosfera da cena. Todas as mudan&#xE7;as acontecem de forma bastante natural. &#xC9; tamb&#xE9;m muito inspirador assistir a espet&#xE1;culos que se prop&#xF5;e a experimentar novas linguagens, e &#xE9; claro que uma montagem que requer uma estrutura t&#xE3;o cara &#xE9; poss&#xED;vel apenas em pa&#xED;ses como a Fran&#xE7;a. Na Cro&#xE1;cia, a situa&#xE7;&#xE3;o do circo &#xE9; bastante complicada. Assim como no Brasil, o circo &#xE9; muitas vezes tratado pela elite art&#xED;stica como uma arte menor, menos intelectualizada, menos merecedora de dinheiro. Aqui na Cro&#xE1;cia, no entanto, essa situa&#xE7;&#xE3;o est&#xE1; institucionalizada e fervendo nas discuss&#xF5;es da cultura do pa&#xED;s.</p><p>Como me explicou Antonia Kuzmani&#x107;, a vice-diretora da Associa&#xE7;&#xE3;o Croata de Circo Contempor&#xE2;neo, n&#xE3;o existe uma categoria para os artistas circenses na Associa&#xE7;&#xE3;o de Artistas Independentes da Cro&#xE1;cia, que serve para unificar a classe art&#xED;stica e tamb&#xE9;m para reduzir os impostos a serem pagos. E &#xE9; claro que n&#xE3;o ser considerado oficialmente artista tamb&#xE9;m impede de se inscrever em editais e programas de fomento ligados &#xE0; arte. Os artistas que fazem parte dessa associa&#xE7;&#xE3;o t&#xEA;m uma legitima&#xE7;&#xE3;o maior por parte das institui&#xE7;&#xF5;es da cultura e do entretenimento e garantem mais alguns direitos. &#xC9; parecido com o nosso DRT. No dia anterior ao espet&#xE1;culo que assisti, a Associa&#xE7;&#xE3;o de artistas independentes votou contra a cria&#xE7;&#xE3;o de uma nova categoria que contemplaria os artistas do circo. Durante o espet&#xE1;culo, o Ministro da Cultura estava sentado na segunda fila. O produtor fez um discurso ao final que emocionou a muitos dos presentes, e provocou outros. Ele falou em prol do reconhecimento do circo como arte - se os pr&#xF3;prios artistas est&#xE3;o uns contra os outros, quem vai ser a favor? A discuss&#xE3;o se estendeu na porta da sala de espet&#xE1;culos, em pequenas rodas de amigos que conversavam com express&#xF5;es bravas, preocupadas, surpresas ou confusas. Nenhuma piscina francesa foi capaz de apagar o fogo dos artistas de circo.</p><p>Ficha t&#xE9;cnica:</p><p>&#x201C;Out of the blue&#x201D;</p><p>Cria&#xE7;&#xE3;o e interpreta&#xE7;&#xE3;o: Fr&#xE9;d&#xE9;ric Vernier, S&#xE9;bastien Davis-VanGelder</p><p>Dramaturgia: Delphine Lanson</p><p>Olhar exterior: Mathieu Despoisse</p><p>Olhar aqu&#xE1;tico: R&#xE9;my Dubern</p><p>Dire&#xE7;&#xE3;o geral: Nicolas Julliand</p><p>Ilumina&#xE7;&#xE3;o: Vincent Griffaut</p><p>Sonoplastia: Hans Kunze</p><p>Constru&#xE7;&#xE3;o da piscina: Franz Clochard&#xA0;</p><p>Figurino e adere&#xE7;os: Emmanuelle Grobert</p><p>Montagem e p&#xF3;s-produ&#xE7;&#xE3;o: Olivier Daco - AY-ROOP</p><p>Difus&#xE3;o: Pauline Sarrazin - AY-ROOP</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Uma fábula do fim do mundo]]></title><description><![CDATA[<p>&#x201C;A &#xFA;ltima raposa do mundo&#x201D; est&#xE1; cada vez mais perto de tornar-se uma pe&#xE7;a de n&#xE3;o-fic&#xE7;&#xE3;o para os moradores da cidade de S&#xE3;o Paulo. Talvez o elemento mais ficcional da narrativa seja a presen&#xE7;a de</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/uma-fabula-do-fim-do-mundo/</link><guid isPermaLink="false">66d74c47b7baf50c2bfd4122</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Sun, 15 Sep 2024 11:56:46 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>&#x201C;A &#xFA;ltima raposa do mundo&#x201D; est&#xE1; cada vez mais perto de tornar-se uma pe&#xE7;a de n&#xE3;o-fic&#xE7;&#xE3;o para os moradores da cidade de S&#xE3;o Paulo. Talvez o elemento mais ficcional da narrativa seja a presen&#xE7;a de smartphones com baterias de longa dura&#xE7;&#xE3;o, incomum em um mundo em que a obsolesc&#xEA;ncia &#xE9; cada vez mais programada. Apesar da introdu&#xE7;&#xE3;o pessimista, o espet&#xE1;culo do grupo Fuma&#xE7;a &#xE9; bem humorado e tem potencial para encantar a todas as idades.&#xA0;</p><p>Uma raposa brasileira diz ser a &#xFA;ltima raposa do mundo. Ela est&#xE1; isolada no topo de um pr&#xE9;dio, na esperan&#xE7;a de que algum dos smartphones que encontrou perdidos pela rua a ajude a se comunicar com algu&#xE9;m - se &#xE9; que existe mais algu&#xE9;m. A altitude a ajuda a escapar da fuma&#xE7;a, que &#xE9; um dos elementos misteriosos do enredo. N&#xE3;o se sabe exatamente o que &#xE9;; basta saber que a raposa deve fugir dela para sobreviver. &#xC9; claro que o cen&#xE1;rio de isolamento remete &#xE0; pandemia de Covid-19. No entanto, &#xE9; preciso ter um olhar maior para a possibilidade pr&#xF3;xima comum a todos os espectadores da temporada de estreia do espet&#xE1;culo, no CCSP: a de se tornarem refugiados clim&#xE1;ticos.</p><p>J&#xE1; que deve fugir da fuma&#xE7;a, a raposa virou amiga do vento, uma personagem que acompanha a protagonista em roupas brancas, dan&#xE7;ando e tocando brasilidades em um clarinete. A carga po&#xE9;tica do espet&#xE1;culo e sua dimens&#xE3;o fabular &#xE9; expandida com a presen&#xE7;a dessa personifica&#xE7;&#xE3;o. O p&#xFA;blico se entedia nesse n&#xE3;o-lugar ouvindo a raposa monologar atrav&#xE9;s de um megafone junto &#xE0; ventania musical, at&#xE9; que acontece algo que muda tudo: um celular toca. Uma outra raposa? O mundo n&#xE3;o est&#xE1; vazio? &#xC9; poss&#xED;vel fazer uma liga&#xE7;&#xE3;o? O ser que est&#xE1; do outro lado s&#xF3; se comunica fazendo perguntas. Ele est&#xE1; em uma biblioteca; j&#xE1; leu v&#xE1;rios livros, enquanto a raposa s&#xF3; teve acesso &#xE0; primeiras p&#xE1;ginas de e-books. Eles escutam uma m&#xFA;sica de Gal Costa e conversam sobre a solid&#xE3;o. O sil&#xEA;ncio fala, diz a raposa, e eu sou fluente.&#xA0;</p><p>O smartphone da raposa fica sem bateria e o ser desconhecido decide ir at&#xE9; ela. Na espera, ela idealiza diferentes cen&#xE1;rios da chegada, torcendo para que seja outra raposa. A cada cena imaginada, no entanto, a suposta raposa perde um elemento de sua esp&#xE9;cie, tornando-se um bicho neutro, um animal sem esp&#xE9;cie. Ela deve aceitar a realidade como ela &#xE9; - talvez ele n&#xE3;o seja uma raposa. Quem chega, finalmente, &#xE9; um grilo, que j&#xE1; est&#xE1; no final da sua curta vida com dura&#xE7;&#xE3;o de seis meses. Os dois conversam, olham a vista, correm, brincam. A caracteriza&#xE7;&#xE3;o das personagens refor&#xE7;a a localiza&#xE7;&#xE3;o e a temporalidade da dramaturgia. As orelhas da raposa s&#xE3;o coques no cabelo. Ela usa coturnos, cal&#xE7;a cargo, camisa e bandana. O grilo veste um corta-vento verde e uma bermuda da mesma cor por cima de um legging, junto com t&#xEA;nis desportivos. Suas antenas de inseto est&#xE3;o acopladas a um &#xF3;culos de sol. S&#xE3;o bichos urbanos e do futuro dist&#xF3;pico.&#xA0;</p><p>A raposa pega no sono e o grilo vai embora, sabendo que sua morte est&#xE1; pr&#xF3;xima. Ele, contudo, deixou um rastro de p&#xE1;ginas de livros para que ela consiga encontrar seu abrigo: &#x201C;Voc&#xEA; &#xE9; a &#xFA;ltima do mundo, mas tem uma biblioteca de outros mundos te esperando&#x201D;. A raposa amarra um tecido no clarinete e transforma o vento em um porta-bandeira, coloca as antenas do grilo e sai &#xE0; procura desse lugar t&#xE3;o sonhado. Talvez as p&#xE1;ginas tenham se dispersado com a fuma&#xE7;a, talvez o vento n&#xE3;o consiga reorganiz&#xE1;-las, talvez ela n&#xE3;o passe pela porta por onde o grilo entrou. No entanto, naquele momento, a raposa n&#xE3;o era mais a &#xFA;ltima.&#xA0;</p><p>Ficha T&#xE9;cnica:</p><p>&#x201C;A &#xFA;ltima raposa do mundo&#x201D;</p><p>Elenco: Jhennifer Peguim, Nuno Jos&#xE9; e Patrick Moreira Lima</p><p>Dire&#xE7;&#xE3;o e dramaturgia: Mois&#xE9;s Bai&#xE3;o</p><p>Pesquisa musical: Patrick Moreira Lima e Mois&#xE9;s Bai&#xE3;o</p><p>Treinamento de humor: Thais Melo</p><p>Cenografia: Julio Vida</p><p>Luz: Dida Genofre</p><p>Figurino: Acacio Mendes</p><p>Design de objetos: Leon Henrico Geraldi</p><p>Concep&#xE7;&#xE3;o de maquiagem: Thais Valentin</p><p>Arranjo musical de &#x2BD;Peixe Vivo&#x2BC;: Bruno Avoglia</p><p>Opera&#xE7;&#xE3;o de luz: Dida Genofre</p><p>Opera&#xE7;&#xE3;o de som: Mois&#xE9;s Bai&#xE3;o</p><p>Design gr&#xE1;fico, ilustra&#xE7;&#xE3;o e m&#xED;dias sociais: Larissa da Cruz e Mois&#xE9;s Bai&#xE3;o</p><p>Fotos digitais: Edu Figueiredo</p><p>Fotos anal&#xF3;gicas: Larissa da Cruz</p><p>Assessoria de imprensa: Canal Aberto</p><p>Produ&#xE7;&#xE3;o: Lud Picosque &#x2014; Corpo Rastreado</p><p>&#xA0;</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Você, mãe?]]></title><description><![CDATA[<p>Voc&#xEA; j&#xE1; andou despretensiosamente pelo Bom Retiro?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; seguiu o som de sinos itinerantes pelo Bom Retiro?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; seguiu uma mulher carregando sinos pelo Bom Retiro?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; teve dificuldades de ouvir o que a mulher disse?</p><p>Voc&#xEA; j&</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/voce-mae/</link><guid isPermaLink="false">66d74d3ab7baf50c2bfd4126</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Tue, 03 Sep 2024 17:55:51 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Voc&#xEA; j&#xE1; andou despretensiosamente pelo Bom Retiro?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; seguiu o som de sinos itinerantes pelo Bom Retiro?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; seguiu uma mulher carregando sinos pelo Bom Retiro?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; teve dificuldades de ouvir o que a mulher disse?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; teve os p&#xE9;s cansados por correr atr&#xE1;s dessa mulher?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; se cansou como uma m&#xE3;e?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; foi acordado por esses sinos?&#xA0;</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; estava comendo em um restaurante quando se deparou com a placa &#x201C;Voc&#xEA; j&#xE1; olhou para uma m&#xE3;e hoje&#x201D;?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; esperou o sinal abrir quando algu&#xE9;m parou para reverenciar seu trabalho como m&#xE3;e?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; foi parada na rua para perguntar o nome da sua m&#xE3;e?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; foi reverenciada pelo seu trabalho como m&#xE3;e enquanto atendia em uma lanchonete?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; perguntou o nome da m&#xE3;e de pessoas desconhecidas na rua?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; ouviu de um homem adulto que o nome de sua m&#xE3;e era &#x201C;minha m&#xE3;e&#x201D;?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; conversou sobre maternidade com crian&#xE7;as que brincavam no meio da rua?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; deixou uma crian&#xE7;a olhar por debaixo de sua saia, depois de explicar que era feita de chita por ser uma refer&#xEA;ncia &#xE0; sua ancestralidade nordestina?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; fez uma m&#xE3;e chorar de emo&#xE7;&#xE3;o em uma esquina?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; fez uma m&#xE3;e sorrir enquanto mexia no celular no meio-fio?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; conversou com m&#xE3;es coreanas, bolivianas e brasileiras no mesmo quarteir&#xE3;o?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; correu como uma m&#xE3;e?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; riu como uma m&#xE3;e?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; fez perguntas como uma m&#xE3;e?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; fez algo por uma m&#xE3;e?</p><p>E hoje, voc&#xEA; fez algo por uma m&#xE3;e?</p><p>Por sua m&#xE3;e?</p><p>E por outras m&#xE3;es?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; sorriu para uma m&#xE3;e?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; reverenciou uma m&#xE3;e?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; conversou com uma m&#xE3;e?</p><p>Voc&#xEA; j&#xE1; olhou para uma m&#xE3;e?&#xA0;</p><p>Quem assistiu &#x201C;M&#xE3;e&#x201D;, de Jocarla, no ERUV 2024, j&#xE1; experienciou tudo isso. Mas isso foi no dia 24 de agosto. Hoje j&#xE1; &#xE9; outro dia. Voc&#xEA; j&#xE1; olhou para uma m&#xE3;e hoje?</p><p>Ficha t&#xE9;cnica:</p><p>&#x201C;M&#xE3;e&#x201D;</p><p>Concep&#xE7;&#xE3;o e a&#xE7;&#xE3;o: Jocarla.</p><p>Assessoria na pesquisa Caboclo de Lan&#xE7;a: Mestre Nico (Caboclo de Lan&#xE7;a) e Eder &quot;O&quot; Rocha .</p><p>Materiais: Surr&#xE3;o com peso aproximadamente 20kg. Lan&#xE7;a com peso aproximadamente 10kg.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["Cíclico" e incontáveis voltas em torno do baobá]]></title><description><![CDATA[<p>A escola de samba vencedora do carnaval do Rio de Janeiro de 2024 foi a Unidos do Viradouro, que usou o s&#xED;mbolo da serpente vodum. Essa representa&#xE7;&#xE3;o surge no territ&#xF3;rio que atualmente &#xE9; o Benin. &#xC9; uma cobra que morde a pr&#xF3;</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/ciclico-e-incontaveis-voltas-em-torno-do-baoba/</link><guid isPermaLink="false">66cf8292b7baf50c2bfd4112</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Wed, 28 Aug 2024 20:06:54 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>A escola de samba vencedora do carnaval do Rio de Janeiro de 2024 foi a Unidos do Viradouro, que usou o s&#xED;mbolo da serpente vodum. Essa representa&#xE7;&#xE3;o surge no territ&#xF3;rio que atualmente &#xE9; o Benin. &#xC9; uma cobra que morde a pr&#xF3;pria cauda, gerando um circuito fechado e representando continuidade e sustenta&#xE7;&#xE3;o. Outro s&#xED;mbolo semelhante que surgiu na &#xC1;frica &#xE9; o ouroboros, cujo primeiro registro foi encontrado no t&#xFA;mulo de Tutankhamun. Ele significa o movimento e a constante evolu&#xE7;&#xE3;o da vida. Ainda, todas as pessoas que viveram 2012 se lembram do calend&#xE1;rio Maia e de um poss&#xED;vel fim do mundo naquele ano. Essa civiliza&#xE7;&#xE3;o pr&#xE9;-colombiana tinha uma concep&#xE7;&#xE3;o c&#xED;clica do Cosmos. Tudo isso para dizer que as tem&#xE1;ticas abordadas por Gabi Costa em &#x201C;C&#xED;clico&#x201D; s&#xE3;o bastante pertinentes, atuais e bem fundamentadas.</p><p>Ao entrar no teatro, o p&#xFA;blico &#xE9; recebido por diversas mulheres, toda a equipe t&#xE9;cnica feminina do espet&#xE1;culo, vestidas de branco em volta de uma estrutura no meio do palco circular. &#xC9; uma estrutura de gavetas de vidro com um baob&#xE1; em cima. Ao longo da pe&#xE7;a, a personagem encontra nos compartimentos bal&#xF5;es de festa, pratos e copos de papel para um ch&#xE1; revela&#xE7;&#xE3;o, luzes pisca-pisca, ta&#xE7;as de acr&#xED;lico bege, - que a deixam muito incomodada - plantas de verdade, que s&#xE3;o rapidamente descartadas porque ela s&#xF3; trabalha com &#x201C;plantas de pl&#xE1;stico&#x201D;.&#xA0;</p><p>A personagem organiza um evento que a todo momento &#x201C;come&#xE7;ar&#xE1; daqui a pouco&#x201D;. Ela narra hist&#xF3;rias de festas que organizou. &#x201C;Cada evento tem uma textura, um clima, uma nuance&#x201D;. A atmosfera constru&#xED;da &#xE9; bem-humorada, divertida e com bastante intera&#xE7;&#xE3;o com a plateia. Em alguns momentos, sempre quando se escutam batidas na porta do teatro, a ilumina&#xE7;&#xE3;o muda, a quarta parede se fecha e a personagem revela-se outra. Ela fala r&#xE1;pido, respira pouco. Est&#xE1; assustada rememorando cenas de viol&#xEA;ncia contra mulheres que aconteceram em festas, como quando viu uma menina escondida debaixo da mesa para fugir da viol&#xEA;ncia dos homens da fam&#xED;lia. Logo depois, no outro plano, a personagem que organiza festas refor&#xE7;a que a mesa &#xE9; sempre a atra&#xE7;&#xE3;o principal de qualquer evento.&#xA0;</p><p>As duas camadas dramat&#xFA;rgicas se complementam para contar a principal narrativa: o car&#xE1;ter c&#xED;clico da viol&#xEA;ncia sofrida pelas mulheres da fam&#xED;lia da atriz. &#x201C;Quantas voltas em torno do baob&#xE1; s&#xE3;o necess&#xE1;rias para apagar as feridas?&#x201D; Gabi d&#xE1; voltas ao redor da &#xE1;rvore e d&#xE1; vontade de assistir uma rela&#xE7;&#xE3;o mais intensa entre as duas. A personagem, que se confunde com a atriz nas suas mem&#xF3;rias, demonstra &#xF3;dio por ter &#x201C;errado&#x201D; e n&#xE3;o conseguir sair do ciclo da viol&#xEA;ncia contra a mulher. Ela v&#xE1;rias vezes fala da impossibilidade do erro por parte das mulheres, como quando faz um relato de uma mulher em uma festa que, ao inv&#xE9;s de ter um &#x201C;corpo de festa&#x201D; comum, feliz, expandido, tinha um corpo tenso e com medo de errar porque seu marido tinha bebido mais do que deveria. O tema da depend&#xEA;ncia qu&#xED;mica aparece mais de uma vez, muitas vezes vindo de figuras masculinas, e menciona diferentes drogas. Ela apresenta o car&#xE1;ter violento, frequentemente escondido, das festas que presencia.&#xA0;</p><p>Em &#x201C;C&#xED;clico&#x201D;, talvez h&#xE1; mais elementos do que a narrativa precisa para ser contada, que cont&#xE9;m tem&#xE1;ticas pertinentes, atuais e bem fundamentadas. Afinal, h&#xE1; muitas refer&#xEA;ncias de cosmovis&#xF5;es c&#xED;clicas, como o calend&#xE1;rio Maia, que se popularizou em 2012, com uma suposta previs&#xE3;o do fim do mundo; ou como o ouroboros, s&#xED;mbolo encontrado por primeira vez enterrado junto a Tutankhamun e simboliza o movimento e a constante evolu&#xE7;&#xE3;o da vida; ou, em uma situa&#xE7;&#xE3;o geograficamente mais pr&#xF3;xima do Teatro de Cont&#xEA;iner, o s&#xED;mbolo da serpente vodum que traz a ideia da continuidade e sustenta&#xE7;&#xE3;o utilizado pela Unidos do Viradouro, escola de samba vencedora do carnaval do Rio de Janeiro de 2024.</p><p>Ficha t&#xE9;cnica:</p><p>&#x201C;C&#xED;clico&#x201D;</p><p>Atua&#xE7;&#xE3;o, Concep&#xE7;&#xE3;o e Dramaturgia. Gabi Costa</p><p>Dire&#xE7;&#xE3;o. Mari&#xE1; Guedes e Thais Dias</p><p>Prepara&#xE7;&#xE3;o Corporal. Ci&#xE7;a Coutinho</p><p>Trilha Sonora. Camila Couto</p><p>Cen&#xE1;rio. Evas Carretero</p><p>Ilumina&#xE7;&#xE3;o. Danielle Meireles</p><p>Figurino. Thais Dias</p><p>Adere&#xE7;os. Gabi Costa e Mari&#xE1; Guedes</p><p>Designer Gr&#xE1;fico. Luna &#xC1;kira</p><p>Fotos. Cl&#xE9;o Martins</p><p>Equipe T&#xE9;cnica e Opera&#xE7;&#xE3;o de Luz e Som. Carolina Gracindo, Camila Couto e Julia Orlando</p><p>Cenot&#xE9;cnica. Jaqueline Soares e Evas Carretero</p><p>Colabora&#xE7;&#xE3;o Art&#xED;stica. Meg Pereira</p><p>Dire&#xE7;&#xE3;o de Produ&#xE7;&#xE3;o. Gabi Costa</p><p>Produ&#xE7;&#xE3;o. Leo Devitto - Corpo Rastreado</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Costurando um teto com retalhos]]></title><description><![CDATA[<p>Virg&#xED;nia Woolf, em um ensaio publicado em 1929 na Inglaterra, disse que &#x201C;uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espa&#xE7;o pr&#xF3;prio se quiser escrever fic&#xE7;&#xE3;o&#x201D;. J&#xE9;ssica Barbosa faz uso desse pensamento da escritora</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/costurando-um-teto-com-retalhos/</link><guid isPermaLink="false">66c78dfcb7baf50c2bfd4107</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Thu, 22 Aug 2024 19:19:27 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Virg&#xED;nia Woolf, em um ensaio publicado em 1929 na Inglaterra, disse que &#x201C;uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espa&#xE7;o pr&#xF3;prio se quiser escrever fic&#xE7;&#xE3;o&#x201D;. J&#xE9;ssica Barbosa faz uso desse pensamento da escritora brit&#xE2;nica e o atualiza para a realidade brasileira, com mais consci&#xEA;ncia de classe. &#x201C;Em busca de Judith&#x201D; &#xE9; a procura por uma hist&#xF3;ria que n&#xE3;o foi registrada; &#xE9;, dentre outras coisas, uma reivindica&#xE7;&#xE3;o pela import&#xE2;ncia de escrever. A pe&#xE7;a encoraja as pessoas, especialmente as mulheres negras, a escreverem em todo lugar: esperando o &#xF4;nibus, lavando os pratos, independentemente do teto que paira sobre as cabe&#xE7;as.<br>
&#x201C;Minha av&#xF3; n&#xE3;o teve uma casa, mas tinha uma m&#xE1;quina&#x201D;. J&#xE9;ssica, em seu solo, relata sua busca pela hist&#xF3;ria de Judith, sua av&#xF3; paterna. Aos 32 anos, ela encontrou uma fotografia de Judith dentro de um livro e come&#xE7;ou a desconfiar da vers&#xE3;o que haviam lhe contado sobre a hist&#xF3;ria de sua ancestral. J&#xE9;ssica n&#xE3;o mais acreditava que ela tinha morrido em um acidente de carro. A desconfian&#xE7;a e a curiosidade a fazem iniciar uma jornada de descobertas sobre sua fam&#xED;lia e ancestralidade. Ela descobre que quando seu pai tinha quarenta dias de idade, sua av&#xF3; foi diagnosticada com uma doen&#xE7;a mental - o que talvez seria lido hoje como uma depress&#xE3;o p&#xF3;s-parto - e foi internada em um hospital psiqui&#xE1;trico no norte da Bahia, onde morou pelos pr&#xF3;ximos treze anos. Judith viveu mais de uma d&#xE9;cada costurando em sua m&#xE1;quina, recebendo eletrochoques e sem saber que sua fam&#xED;lia lhe enviava diversas cartas, que nunca foram entregues.<br>
Quando Judith recebeu alta, ela voltou &#xE0; Jacobina, sua cidade natal, e n&#xE3;o foi autorizada a ver seus filhos. Ela, ent&#xE3;o, decide retornar ao hospital, desta vez para trabalhar como costureira. Judith, ent&#xE3;o, permaneceu na institui&#xE7;&#xE3;o at&#xE9; o final de sua vida. J&#xE9;ssica costura uma dramaturgia que reflete seu processo de cria&#xE7;&#xE3;o; &#xE9; uma constru&#xE7;&#xE3;o de retalhos. Misturam-se elementos sobre a busca pela hist&#xF3;ria de sua av&#xF3;, como quando sua tia repete &#x201C;o que &#xE9; que essa menina sabe da vida pra ficar falando assim da v&#xF3;&#x201D;; junto a pr&#xF3;pria narrativa da vida de sua av&#xF3;, como quando Judith vai &#xE0; Salvador e um refletor esquenta e ilumina diretamente o p&#xFA;blico, obrigando os espectadores a fecharem os olhos com a mesma viol&#xEA;ncia do sol da capital baiana; e tamb&#xE9;m com reflex&#xF5;es sobre a sa&#xFA;de mental e a luta antimanicomial, como quando J&#xE9;ssica canta: &#x201C;N&#xE3;o esquece que o doente de repente &#xE9; uma pessoa&#x201D;.<br>
Assim como Judith, o espet&#xE1;culo n&#xE3;o d&#xE1; ponto sem n&#xF3;. Nota-se um trabalho dramat&#xFA;rgico por parte de todas as visualidades. O figurino que J&#xE9;ssica usa na maior parte do espet&#xE1;culo &#xE9; feito de retalhos, assim como a hist&#xF3;ria que ela conta. A cenografia &#xE9; formada por diversos cubos de diferentes tamanhos cercados com arame. Dependendo da configura&#xE7;&#xE3;o, e junto a um trabalho meticuloso de ilumina&#xE7;&#xE3;o, os cubos representam, dentre outras coisas, uma grade de pris&#xE3;o, um carrinho ou uma mesa para apoiar a m&#xE1;quina de costura - que, inclusive, foi a &#xFA;nica aus&#xEA;ncia do espet&#xE1;culo. Por ser t&#xE3;o central na narrativa, a presen&#xE7;a de uma m&#xE1;quina de costura de verdade seria impactante e significativa, ao inv&#xE9;s de sua representa&#xE7;&#xE3;o produzida com outros materiais. A m&#xFA;sica tamb&#xE9;m comunica bastante em &#x201C;Em busca de Judith&#x201D;. No palco, J&#xE9;ssica &#xE9; acompanhada por dois m&#xFA;sicos que tocam percuss&#xE3;o e guitarra, e ela mesma toca instrumentos em alguns momentos. H&#xE1; partes do texto que viram m&#xFA;sica e h&#xE1; partes das m&#xFA;sicas que viram texto.<br>
Por fim, depois dos aplausos, J&#xE9;ssica ainda prop&#xF5;e reflex&#xF5;es: qual &#xE9; o espelho do territ&#xF3;rio que envolve o teatro dentro da cena? Como uma pe&#xE7;a que reivindica a luta antimanicomial permite ser atravessada pela realidade do lado de fora? Ou, ainda, como a discuss&#xE3;o proposta dentro da cena &#xE9; capaz de reverberar fora dela? J&#xE9;ssica Barbosa transforma o Teatro de Cont&#xEA;iner em um teto todo de Judith e, junto ao p&#xFA;blico, costura uma colcha de retalhos para homenagear a sua ancestralidade.</p>
<p>Ficha t&#xE9;cnica:<br>
&quot;Em busca de Judith&quot;<br>
Idealiza&#xE7;&#xE3;o - J&#xE9;ssica Barbosa e Pedro S&#xE1; Moraes<br>
Dire&#xE7;&#xE3;o, roteiro e trilha original - Pedro S&#xE1; Moraes<br>
Com - J&#xE9;ssica Barbosa, Muato e Alysson Bruno*<br>
Dire&#xE7;&#xE3;o de movimento, assist&#xEA;ncia de dire&#xE7;&#xE3;o e prepara&#xE7;&#xE3;o corporal - Leandro Vieira<br>
Supervis&#xE3;o de Dire&#xE7;&#xE3;o Teatral - Fabiano de Freitas<br>
Desenho de luz - Fabiano de Freitas<br>
Mapa e opera&#xE7;&#xE3;o de som - Pedro S&#xE1; Moraes Com Jessica Barbosa<br>
Participa&#xE7;&#xE3;o especial (vozes &#x201C;off&#x201D;) - L&#xE9;a Garcia, Veranubia Barbosa, Arlindo Oliveira, Juracy de Oliveira, Fabiano de Freitas e Pedro S&#xE1; Moraes<br>
Dramaturgia - J&#xE9;ssica Barbosa e Pedro S&#xE1; Moraes<br>
Supervis&#xE3;o Art&#xED;stica - Joel Pizzini<br>
Diretora de Arte - Ana Rita Bueno<br>
Figurinista - Cris Rose<br>
Costura e Moulage - Juarez Souza de Oliveira<br>
Visagismo e Maquiagem - Diego Nardes<br>
Assistente de Visagismo e Cabelos - Lucas Souza</p>
]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["Lídima": germinações que chegam à canoa]]></title><description><![CDATA[<p>O teatro escuro. Por alguns instantes, a &#xFA;nica luz em cena &#xE9; o vermelho e azul de uma viatura, estacionada em frente ao teatro. O territ&#xF3;rio conversa logo nos primeiros minutos com &#x201C;L&#xED;dima&#x201D;, abertura de processo de Silvana Farias que &#xE9; um manifesto</p>]]></description><link>https://citricacritica.com/lidima-germinacoes-que-chegam-a-canoa/</link><guid isPermaLink="false">66c535f6b7baf50c2bfd40f1</guid><dc:creator><![CDATA[Lena Giuliano]]></dc:creator><pubDate>Wed, 21 Aug 2024 00:37:19 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>O teatro escuro. Por alguns instantes, a &#xFA;nica luz em cena &#xE9; o vermelho e azul de uma viatura, estacionada em frente ao teatro. O territ&#xF3;rio conversa logo nos primeiros minutos com &#x201C;L&#xED;dima&#x201D;, abertura de processo de Silvana Farias que &#xE9; um manifesto pela sua emancipa&#xE7;&#xE3;o. O corpo de m&#xE3;e se reivindica como mulher; o corpo ind&#xED;gena se reivindica como aldeia. Aos 49 anos, Silvana se redescobriu como uma pessoa desej&#xE1;vel e com puls&#xE3;o de vida e decidiu tentar algo diferente: teatro.</p><p>&#x201C;L&#xED;dima&#x201D; come&#xE7;a em um palco com poucas luzes e bastante sil&#xEA;ncio. Silvana expande gestos pelo espa&#xE7;o - toma ch&#xE1; quente, chora como um beb&#xEA;, empurra um tronco. A repeti&#xE7;&#xE3;o leva &#xE0; exaust&#xE3;o, em uma daquelas coreografias em que o objetivo &#xE9; descoreografar, &#xE9; conscientizar o movimento, &#xE9; deslocar as express&#xF5;es do cotidiano e problematiz&#xE1;-las. Ela traz mem&#xF3;rias do que identifica como um &#x201C;corpo que serve&#x201D;, que &#xE9;, por exemplo, descobrir apenas de adulta como prefere a temperatura de seu caf&#xE9;, j&#xE1; que a bebida que preparava sempre era para outra pessoa.&#xA0;</p><p>Depois dos cinquenta anos, ao relacionar-se com outro homem e redescobrir seu corpo como objeto de desejo, ela percebe que a opress&#xE3;o n&#xE3;o tinha ido embora com seu ex-marido. A viol&#xEA;ncia tamb&#xE9;m vinha de seus filhos, todos os sete, que estavam presentes na abertura de processo e contribu&#xED;ram para a instaura&#xE7;&#xE3;o de uma atmosfera &#xED;ntima e cheia de carinho durante a apresenta&#xE7;&#xE3;o. Silvana n&#xE3;o nega seu papel de m&#xE3;e, sen&#xE3;o reconhece seu lugar como mulher para al&#xE9;m de seus filhos. &#x201C;Tenho um ventre de milhares de sonhos&#x201D;. Ela se dirige &#xE0; seus filhos que, estando todos na plateia, se misturam com o p&#xFA;blico do teatro: &#x201C;Voc&#xEA;s s&#xE3;o povo em p&#xE9;. &#xC1;rvores que povoaram esta terra&#x201D;. E ainda pede que cantem e dancem.&#xA0;</p><p>Al&#xE9;m da opress&#xE3;o no ambiente dom&#xE9;stico, Silvana tamb&#xE9;m traz em seu discurso a experi&#xEA;ncia de ser uma mulher ind&#xED;gena no Brasil. N&#xE3;o quer mais ser vista como um corpo garimpado. &#x201C;N&#xE3;o vou vestir roupas de vi&#xFA;va&#x201D;, ela diz em um dos momentos mais impactantes da pe&#xE7;a. Ela tira o figurino de algod&#xE3;o que vestia at&#xE9; ent&#xE3;o, uma camisa de manga longa e uma saia que chegava at&#xE9; seus tornozelos, e revela trajes ind&#xED;genas amarelos, de macram&#xEA; e mi&#xE7;angas que deixam seu corpo &#xE0; mostra. Seu corpo &#xE9; aldeia. Silvana narra a liberta&#xE7;&#xE3;o de uma opress&#xE3;o na perspectiva do cotidiano, atrav&#xE9;s de pequenas conclus&#xF5;es do dia a dia, como perceber que &#x201C;um dia de sol n&#xE3;o serve s&#xF3; para lavar roupas&#x201D; ou, ainda, que &#x201C;n&#xE3;o&#x201D; &#xE9; uma frase completa. Ela serve ch&#xE1; ao p&#xFA;blico e declama: &#x201C;A morte de um del&#xED;rio que veio &#xE0; caravelas. Deixo este balaio de germina&#xE7;&#xF5;es que veio &#xE0; canoa&#x201D;.&#xA0;</p><p>	Em um momento sens&#xED;vel da pe&#xE7;a, a mulher quebra a quarta parede e fala com o p&#xFA;blico sobre o processo de cria&#xE7;&#xE3;o sem deixar a poesia de lado. Silvana exp&#xF5;e que a personagem &#xE9; uma crise: ela gostaria de ser outras, mas acaba sempre encontrando todas dentro de si. Esse corpo, ent&#xE3;o, manifesta-se inevitavelmente coletivo. E o que fazer com esse corpo que transborda? Que &#xE9; um corpo de mulher, que faz teatro, que &#xE9; desej&#xE1;vel, que &#xE9; aldeia, que &#xE9; muitos? Silvana segue o conselho que deu aos seus filhos e dan&#xE7;a. A abertura de processo termina, ent&#xE3;o, com uma perspectiva rom&#xE2;ntica de uma mulher de 54 anos que est&#xE1; redescobrindo a vida e que sabe que ainda tem muitas pe&#xE7;as por estreias e muitos pontos de cabocla por dan&#xE7;ar. &#x201C;Pra ver a for&#xE7;a que a Jurema tem, pra ver a for&#xE7;a que a Jurema d&#xE1;&#x2026;&#x201D;</p><p></p><p>Ficha t&#xE9;cnica:</p><p>&#x201C;L&#xED;dima&#x201D;</p><p>Atua&#xE7;&#xE3;o: Silvana Farias</p><p>Dire&#xE7;&#xE3;o e Ilumina&#xE7;&#xE3;o: Rodrigo Silbat</p><p>Dramaturgia: de Rodrigo Silbat para Silvana Farias</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>