A janela ainda está fechada
Para que serve uma peça de teatro? E a quem? Ou, senão: uma peça tem que servir? Se o objetivo da Bendita Trupe ao encenar “O céu fora daquela janela” no Sesc Vila Mariana era incitar debates, ela conseguiu. Só não talvez sobre os temas esperados. A peça se propõe a discutir temas feministas da contemporaneidade através de um enredo que se passa em 1798, quando uma mulher é condenada pelo homicídio de uma criança. Se ela estiver grávida, será presa; se ela não estiver grávida, será enforcada. Um grupo de mulheres, então, é reunido para chegar a um consenso sobre a gravidez da moça, em uma espécie de “12 homens e uma sentença” feminista. O texto é da britânica Lucy Kirkwood, escrito em 2020.
O que observo na peça são temas feministas que já estão apreendidos pelo público interessado em assistir uma peça de teatro no Sesc Vila Mariana: a importância de falar do corpo feminino e da menstruação, por exemplo. Para esse público, se o objetivo é promover debates, talvez seja mais interessante aprofundar-se em outras temáticas do feminismo - como a não binariedade ou a maternidade não-nuclear, como foram apontados no Boteco Crítico - ou senão buscar as contradições dentro das que já estão na peça. Além disso, o elenco tem uma diversidade racial que poderia ter seus debates mais aprofundados através da encenação. Esse espetáculo ganharia mais força em espaços em que esses temas se transformariam em discussão. Não precisa ir muito longe - em uma visita rápida ao Instagram da Bendita Trupe já encontrei comentários misóginos, possivelmente red pills, uma criação da minha geração.
Me parece, então, que o espetáculo procura a concordância do público sob o mote do debate. Será que a via democrática interessa mesmo? Talvez “O céu fora daquela janela” seja mais uma forma de reafirmar o projeto filosófico da instituição por meio do grupo convidado para a encenação. Grande parte do elenco é conhecido no universo teatro de grupo paulistano pela profundidade da sua pesquisa de linguagem como Aysha Nascimento, Sofia Botelho, Cris Rocha, Nilcéia Vicente, Thais Dias, para citar alguns exemplos. Então ficam as questões: como montar um elenco? Por que convidar atrizes com histórico de teatro de grupo para fazer uma peça com perfil comercial? Me parece que pelo caráter da produção as fronteiras entre esses dois tipos de teatro ficam nebulosas, o que pode ser perigoso visto que o teatro de grupo, que representa uma utopia artístico-filosófica na forma de habitar a cidade de São Paulo, vem sendo ameaçado de diversas maneiras pelo governo de Ricardo Nunes. Qual é o interesse ao convidar esse elenco fazendo uso de sua técnica, mas censurando as suas pesquisas como atrizes-criadoras?
A peça revela, em seu próprio enredo, que o debate filosófico entre as mulheres foi em vão. Em certo momento da peça - spoiler - um médico é chamado para fazer exames ginecológicos e investigar se a mulher está gestante. Em poucos minutos ele confirma a gravidez. A pergunta que fica é: se já existia essa tecnologia na época, qual a necessidade do debate? A peça, ainda, associa a figura masculina à ciência e à racionalidade, tendo a palavra final. Talvez seja mais pertinente e interessante que o conhecimento científico seja também feminino, ou senão buscar outro ponto de discussão, já que é possível saber se a personagem está grávida em poucos minutos.
A cenografia também tem um caráter institucional. As cadeiras e as mesas eram de uma madeira moderna e estava tão limpa que reluzia. Facilmente estariam em uma sala de escritório. No perímetro do palco, telas translúcidas caíam, e por vezes apareciam nelas imagens ilustrativas das falas das personagens, que se relacionavam de maneira banal com o conteúdo das suas falas ou até mesmo ilustrava a pessoa que estava com a palavra. Pelo conjunto total do palco, as telas me lembraram cortinas retráteis comumente encontradas em janelas de empresas. Atrás das telas, havia uma estante que cobria todo o fundo do palco cheia de vidros de diversos formatos e tamanhos. Em nenhum momento houve nenhuma justificativa da estante, assim como das imagens inegavelmente bonitas e possivelmente (e provavelmente) instagramáveis, como as cadeiras penduradas no início do espetáculo ou sacos plásticos cheios de água que também desceram por cordas em certo momento, e foram rapidamente escondidos de volta, sem tempo para apreciá-los, mas sim para fazer um story.
O “O céu fora daquela janela” deixa à espectadora a vontade de aprofundar os debates feministas, para poder voltar para casa com a mesma energia de discussão que se vê no palco. Dá vontade de ver a sujeira da menstruação sem celebrá-la; temas sujos, palcos sujos, mesas, cadeiras e telas sujas. Impedir a busca pela concordância. Aceitar as contradições de ser mulher, assim como nós como categoria aceitamos as contradições do teatro de grupo abraçar essa instituição que poda o trabalho da pesquisa de linguagem. Encontrar, enfim, o céu fora da nossa janela.