Luís Antônio Gabriela e a experiência mítica de ir ao teatro
No último domingo assisti Luís Antônio Gabriela, da Cia. Mungunzá, pela primeira vez. Já ouvi falar tanto dessa peça que a ida à Funarte se tornou uma experiência mítica. Muitos dos pensadores da cena teatral paulistana que eu admiro se referem a ela como um paradigma para tudo o que veio depois nos palcos paulistanos. Não foi só a capacidade da Mungunzá de organizar o meu olhar que me guiou pela tarde de domingo, senão também a teatralidade construída pelos meus mestres sobre essa peça que me é ancestral ao longo dos meus anos de teatro - que, por sinal, vieram bem depois de Luís Antônio Gabriela, que estreou em 2011. Não acho que eu precise fazer maiores contextualizações.
Senti necessidade de escrever sobre o espetáculo - tanto que estou escrevendo no grupo de WhatsApp comigo mesma no celular antes de dormir, ao invés de abrir o computador e me sentar à mesa como manda o protocolo. Por que escrever sobre um espetáculo de qual já escreveram várias vezes? E justamente o que se destaca no palco é a necessidade. Uma necessidade brutal de pensar no palco, no corpo, na poesia, na imagem e no debate público sobre a história da família Baskerville com Gabriela. As palavras de Nelson iluminam a última cena: "esse espetáculo é um pedido de desculpas. Me desculpa, Gabriela. Eu não soube lidar com isso". Nelson em nenhum momento tenta dar explicações pelo seu comportamento, ou tenta se eximir de qualquer responsabilidade. Ele expõe as contradições e complexidades de sua história familiar sem aparentemente esconder nada, decidindo, inclusive, mostrar documentos à exaustão.
Nesta temporada realizada em abril de 2026 na Funarte, o grupo faz a peça por uma necessidade material, uma vez que sua sede acaba de ser roubada pelo governo do Ricardo Nunes. Marcos Felipe, que faz Luís Antônio, diz nos agradecimentos que eles não acreditam que o teatro seja mais importante que a violência nesse tipo de situação, e que estão fazendo a peça porque precisam pagar suas contas. Apresentar Luís Antônio Gabriela se torna necessário para sobreviver financeiramente e também simbolicamente. Talvez só em agosto de 2025, com as primeiras ameaças da retirada do Teatro de Contêiner, que eu tenha me dado conta do que esse espaço significa em São Paulo. Entrei no mundo do teatro quando o Contêiner já estava consolidado; era um lugar a mais presente no Guia Off para assistir teatro. Na verdade, o que o Teatro de Contêiner representa é um imaginário de cidade que enfrenta o neoliberalismo, o conservadorismo, a especulação imobiliária e cria outras possibilidades de cidadania. Bem mais do que uma sala de espetáculo qualquer.
A peça é sobre a relação real de Nelson Baskerville com a sua irmã travesti, Gabriela, mas esse não se limita a ser o tema. Vira linguagem. Há uma exploração sofisticada do épico que, como muito bem escreveu amilton de azevedo em sua crítica de 2018 - quando Fábia Mirassos assumiu o papel de Gabriela - gera um distanciamento reflexivo do público acerca do que é contado, ao mesmo tempo que o prende afetivamente. A encenação trabalha o texto de forma a levá-lo à sua última potência ao escolher sublinhar frases tirando-as da boca dos atores. Palavras de uma frase são reveladas uma a uma em balões que ganham ar pouco a pouco, frases passam em led vermelho no painel de fachada de loja, Luís Antônio exibe cartazes com suas reflexões.
Pelo o que eu assisto no circuito hegemônico do "teatro independente paulistano", o épico muitas vezes me parece antiquado e com recursos repetitivos, e a proposta autobiográfica costuma me parecer cheia de modismos e pouca urgência. Em Luís Antônio Gabriela vi o contrário, o que é ainda mais curioso ao pensar que, segundo o que me contaram, tudo veio depois dela. Toda a memória do espetáculo está disponível no site da Mungunzá- a dramaturgia, o rider técnico, o documentário sobre o processo, a trilha sonora e até o vídeo da peça na íntegra. E ainda assim se formou uma longa fila da esperança, e muitas das pessoas da fila ficaram de fora do espetáculo, mesmo depois de 15 anos de circulação.
Ao final, uma pequena enquete é feita com o público: quem aqui veio assistir essa peça pela primeira vez? Mais ou menos 80% do público levantou a mão, e disseram que mais ou menos 80% do público da temporada era desse perfil. Quanto tempo dura uma peça? Essa dura bem mais que 100 minutos. Minha mãe também assistiu e adorou, e ela não sabia de todo esse contexto. Ou seja, também dá para assistir Luís Antônio Gabriela sem a dimensão histórica. Depois tomamos sorvete e andamos pelo minhocão.