Está a mãe
É provável que Janaína Leite não saiba que está presente na foto da capa de Facebook da turma de 021 de Artes Cênicas na USP, a comemoração virtual da nossa aprovação. É provável que ela não tenha noção do impacto da sua obra nas meninas-mulheres que estão conhecendo o "teatro contemporâneo". É provável que esse tenha sido o último ano em que alguém se dedicou a fazer uma capa para o Facebook. Desde meu primeiro ano na faculdade eu escuto falar de Janaína Leite, e minha mãe também me escuta falar dela. Assisti Camming 101 na pandemia, à convite dos meus professores, e li Stabat Mater muito antes de assisti-la. Sempre ameaço minha mãe de que irei colocá-la para atuar em uma peça comigo.
No dia que assisti Stabat Mater, no início de 2025, no Tusp Maria Antônia, voltei para casa dizendo que quando tivesse de novo eu iria levá-la. E assim o fiz há duas semanas. Além de minha mãe, Andrea Centeno também é mãe da minha irmã Olivia, de 15 anos, jornalista, escritora de contos e romances, uma grande leitora e admiradora de mulheres da ficção contemporânea e imigrante no Brasil há 21 anos. Tornou-se espectadora de teatro por minha causa, que gosto de artistas como Janaína Leite, e pela minha irmã, que é fã de Lin-Manuel Miranda. Então nos últimos anos ela teve acesso a um espectro bem variado das artes cênicas. No fim, Stabat Mater a transformou em mais um membro da legião de fãs de Janaína. Saímos as duas encantadas. Ela quis escrever, pela primeira vez, uma crítica de teatro, que escreveu em espanhol e eu traduzi. Segue o texto.
Uma mulher vestida com uma camisa tipicamente masculina está parada na penumbra de um cenário que não tem muito mais do que uma mesa sobre a qual se destaca uma latinha de Schweppes ao lado de uma garrafa de gim, um poste de pole dance ao lado e, ao fundo, duas palavras em latim escritas em néon: Stabat Mater, que poderia ser traduzido como a pergunta “onde estava a mãe?”. É pouca a informação que aparece no começo, mas cada detalhe parece colidir com o outro. A mulher está grávida e há muito álcool — mais tarde saberemos que também há barbitúricos — à sua disposição; ela usa uma camisa que poderia pretender certa elegância, mas está amassada; usa óculos grandes que lhe conferem um ar intelectual e não combinam com as joelheiras nas pernas nuas. Acima de tudo, a mulher não é qualquer mulher, é “A” mulher, cujo nome tem sido associado, na última década do teatro contemporâneo, à ousadia e à ruptura com as encenações tradicionais. É Janaína Leite.
Na obra de Janaína Leite há obscenidade, despreconceito, sexo, terror, pornografia, citações bíblicas, irreverência, mas, acima de tudo, há rigor. Muitos elementos desconexos que, no entanto, fazem todo o sentido. E a linha entre a autoficção e a realidade — que aqui, por instantes, se mostra cruel — é difusa. E essa dilação é extremamente atraente em cada um dos 110 minutos da encenação. Será verdade que essa mulher, firme e cheia de certezas no palco, passou por uma tragédia dessas? Será dela o corpo que agrada e se amplia na tela, abrindo-se como uma luva enquanto é penetrado por um homem que, a todo momento, se esforça para mostrar, justamente isso, que se esforça para dar prazer sexual e exibir-se como superdotado? A mulher que entoa com doçura uma canção de ninar enquanto acolhe a atriz em seu colo e interpela a plateia, com um tom que mistura resignação e inocência, é realmente a mãe da dramaturga-atriz-performer? E o público: será que se faz essas perguntas com curiosidade, com morbo, com pena ou com o simples interesse de compreender o que está sendo apresentado?
Pouco importam as respostas: a tragédia está à mostra, assim como as datas, a intimidade das conversas pelo WhatsApp, o sexo e o ato sexual já concluído. O letreiro de néon com o título da peça se acende: Stabat Mater em branco frio. A mãe continua ali. “O que uma mãe não faria pela filha?”, pergunta a mulher aos espectadores na plateia, com um tom que mistura resignação, amargura e felicidade. E da terceira fileira do teatro, já sabia de antemão que a resposta cabe em apenas uma palavra: tudo.
Que essa experiência não te impeça de viver a vida como você quer fazer dela, que não te proíba de fazer nada, conta logo a Mãe o que foi o conselho de um médico à Filha após um episódio de abuso sexual (e o relato dessa cena é belamente arrepiante, chocante e comovente) Sim, o texto da peça comove e atinge ao mesmo tempo como um soco no estômago, e de forma mais profunda do que as imagens, enquanto no mundo real ou, sobretudo, na tela de um cinema costuma acontecer o contrário. Esse conselho paterno proferido por um médico (no fim das contas, o único que parece nunca ter estado presente é o pai, pelo menos nesta peça) é talvez o maior contexto — além da ausência paterna —, argumento, desculpa ou passo inicial na dramaturgia para que a filha encare visceralmente o caminho contrário ao que se supunha que ela deveria ter seguido diante da tragédia. A partir da dor, a protagonista não se isolou, mas empreendeu essa travessia majestosa que constitui toda a obra, transformada em uma espécie de redenção divina do trauma. E nessa jornada tudo acontece graças a uma trindade: O Profissional, que nada mais é do que um ator pornô que entra e sai de cena como se supõe que ele faça em seus filmes, movendo-se como um peixe em um aquário, a Filha e, claro, a Mãe; ambas sempre à vista uma da outra, e vice-versa.
Assistir Stabat Mater sentada à direita da minha filha Lena foi uma experiência forte, certamente daquelas cujas sensações vou levar comigo para o resto da vida. Não sei escrever críticas de peças de teatro e tenho medo de revelar spoilers; também não estudei teatro nem me dedico a isso, além de ler algumas peças — que me aproxima minha filha — ou sentar-me como espectadora. Assim como a mãe no palco, eu também estava lá, em uma sala do Instituto Capobianco, numa noite de domingo extremamente chuvosa e fria. Tanto que a recepção dos espectadores precisou ser reorganizada devido a algumas goteiras, dos quais alguém da equipe de produção do teatro falou, mas que para os presentes foram invisíveis. É que antes mesmo do início da peça, talvez como parte da encenação ou por aquilo que ”the show must go on", o Profissional entra em ação dançando de forma sensual entre nós que esperamos, com o rosto escondido dentro de uma enorme cabeça de pelúcia e o torso aparecendo e desaparecendo sob a camiseta que revela sua função: Profissional, como se lê no peito. A mãe usa uma roupa igual, mas obviamente com a palavra Mãe, e, sob a camiseta amassada e sobre a barriga de grávida, Janaina Leite se identifica como Filha. Identidades — todas as três — que desaparecerão ou terão seus papéis alternados entre uma e outra. A Filha dançará, exibindo sua habilidade de se mover, enrolar-se e desenrolar-se, também como uma profissional, ao redor do pole dance. De alguma forma, a Filha então abandona o trauma e libera suas ambições de stripper (ou de Profissional), enquanto o próprio Profissional consola a Mãe, vestida com um roupão. E outras coisas do gênero (sem dar spoiler).
À expressão “Stabat Mater”, se ela fosse irremediavelmente uma pergunta, há ali uma resposta imediata e com a precisão do tempo durante as quase duas horas que dura a apresentação. A mãe estava lá, o tempo todo, sempre presente, suportando o que poderia ter sido, assumindo sobre seus ombros o que está acontecendo e garantindo que ajudará, sem condições nem pretextos, a carregar o que está por vir. Eu também. Com todo o prazer.