Living the dream

Já faz alguns meses que minhas amigas estão obcecadas com o videogame Tomodachi Life: Living the Dream. O jogo consiste em criar Miis, bonequinhos do Wii, criar a cidade, escolher as roupas, decorar os quartos e esperar que interajam entre eles. Quando eles interagem, ganham pontos, e quando sobem de nível com esses pontos, você pode adicionar um trejeito, uma palavra, um gesto, alguma coisa que vá somar à personalidade desse bonequinho. Bastou uma retirada do apêndice da Ana e o Nintendo Switch da Letícia para que rapidamente todo o nosso grupinho de amigos ganhe um boneco no Tomodachi Life.
A diferença com outros joguinhos do tipo é que a interação acontece sozinha. Eles conversam uns com os outros e podem brigar, podem se desgostar, podem se gostar, querer amizade ou um namoro. E então eles mesmos escolhem casar, morar juntos, ter filhos. Você abre o jogo e acompanha as atualizações de quando você não estava. E desde então escuto frases como: “Gente, o Ivan foi morar com o Cascão!”, “A Sabrina Carpenter está brigando com a Lena para namorar o Harry Styles!” ou “A Carrie Bradshaw foi no aniversário da Triz”, o que, claro, sempre causa confusão para quem não conhece o jogo, que promoveu no nosso cotidiano um deslocamento da nossa linguagem. Contamos esses fatos no grupo e nos rolês como se fossem mais um acontecimento das nossas vidas.

Além de nós mesmas, também criamos a Turma da Mônica, os membros do One Direction, do Restart e do Green Day, as protagonistas de Sex and The City e outras celebridades que rondam o nosso mundinho. No mapa, temos a Praça da República no centro, onde fica a minha casa; Manhattan de um lado, Diadema do outro, onde moram juntos Laris e Gui, e também o Bairro do Limoeiro. Ao menos nas palavras, agora a ilha de Nova York é tão acessível quanto o ABC Paulista, e o Liam Payne e o Cebolinha são tão palpáveis quanto a nossa amiga Jenn.
É importante pontuar que nós somos um grupo de amigas que conversamos quase todos os dias, o dia todo, e que nos vemos com muita frequência. Naturalmente, as novidades se esgotam. Quando o quarto está arrumado, podemos revistar as gavetas. Temos espaço para falar de assuntos mais profundos sobre o mundo e sobre nós mesmas, ultrapassando se quisermos os causos do cotidiano e os desejos fúteis, sem descartá-los. No entanto, fazemos uso do Tomodachi Life como uma máquina que produz as novidades que nos faltavam, e agora de uma ordem absurda. Tudo é engraçado e tem registro imagético, que em poucos segundos vira stories e figurinha de whatsapp. Estamos produzindo novidade, fofoca e relações conscientemente artificiais.

Em “Fragmentos de um discurso amoroso”, Roland Barthes diz que quando estamos apaixonados, toda ação da pessoa amada vira signo. Ou seja, não responder no WhatsApp por algumas horas não é uma simples ausência, é provavelmente uma grande preocupação, uma grande ansiedade e angústia por todo aquele período. Acredito que realizamos um procedimento parecido em nossas vidas quando estamos sedentos por novidades. Aumentamos fatos em narrativas para torná-las interessantes, passamos a analisar os comportamentos de uma pessoa para poder narrá-lo, e, enfim, produzimos artificialmente fofoca como uma maneira de fazer uma manutenção das relações sem precisar aprofundá-las.
Em "Notas sobre o Camp", Susan Sontag diz que “Os recursos tradicionais que permitem ultrapassar a seriedade convencional — ironia, sátira — parecem fracos hoje, inadequados ao veículo culturalmente supersaturado no qual a sensibilidade contemporânea é educada. O Camp introduz um novo modelo: o artifício como ideal.” Quanta distância há entre o Tomodachi Life e o bebê reborn? A beleza das duas coisas está na capacidade técnica da imitação da vida. O Tomodachi Life, no entanto, em nenhum momento busca o realismo. Ele permite que o absurdo, o nonsense e o caos aconteçam nas nossas relações de forma segura e distanciada, e que a intimidade do nosso vínculo seja transformada em meme, permitindo uma projeção dos nossos desejos. Por exemplo, nós torcemos para que os bonequinhos se casem com os nossos ídolos da adolescência. Bruno, meu namorado, disse que ficaria triste se nossos bonequinhos não namorassem também.

Sontag, ao falar sobre a fotografia, diz que não há nada mais surrealista do que se ver duplicado em uma foto. Isso porque ela nem conheceu o nosso uso ridículo da IA nas redes sociais. E também diz que a câmera nos transforma em turistas da realidade alheia. Neste caso, o jogo é um dispositivo que nos permite nos alhear da nossa própria realidade, para sermos turistas nela. Assistir ao espetáculo das nossas relações nos bonequinhos é muito mais interessante do que vivê-las. Uma das minhas amigas quis ir embora da minha casa para jogar o jogo, em que nós estaríamos como personagens.
Acredito que o Tomodachi Life seja um contorno saudável para esse procedimento que todos nós realizamos por não sermos capazes de nos contentar com o tédio. Toda semana tem uma nova trend, um novo filtro, ou para nós que somos intelectuais e imunes às conhecidas armadilhas algorítmicas, uma peça de teatro em cartaz imperdível, um filme novo que todo mundo tem que ver. Somos consumidoras das redes sociais, do teatro, do cinema, da fofoca, das nossas próprias vidas. Mesmo ciente do efeito que ele está causando em nossas vidas, o Tomodachi Life é muito divertido. Talvez me cause tanta fascinação porque nunca tinha vivido um videogame com essa intensidade, e ainda em comunhão com vários amigos. É uma vida sem adultos, mesmo que todos sejamos adultos, em que o que nos dá dinheiro é cultivar relações. Apenas nos divertindo em uma ilha. Talvez uma vida mais parecida ao paraíso cristão do que gostaríamos. Just living the dream.

