Que comam churrasco
Um carrinho de churrasco. O toldo listrado azul e branco, a carne empilhada e giratória, os sacos de pão, o vinagrete. Em uma das pontas, um toca-discos e uma fila de opções para ouvir; do outro lado, uma televisão transmitindo o jogo do 7x1. Ao lado do carrinho, microfones em pedestais, instrumentos à disposição e uma cabeça de porco gigante. O desejo de deslocar as relações previstas pelo térreo do prédio do Instituto Brasileiro de Teatro (iBT). Os artistas do USO - Teatro Urbano se posicionaram em distintas funções para performar o “Carrinho trágico de churrasco grego”, buscando transformar a sua sede ambulante em um grande dispositivo relacional.
Era sábado à noite na virada cultural de São Paulo. Duas filas se formavam ao mesmo tempo: de um lado do carrinho, a fila para comer churrasco grego; do outro, a fila para assistir Gota d’água dirigida por Georgette Fadel, formada com quase três horas de antecedência por um público que ultrapassava o dobro da capacidade da sala de espetáculos. e ironicamente posicionadas com o olhar em direção ao jogo de futebol; mais da metade da fila não conseguiu assistir a peça. No meio das esperas, o tapete lúdico da bebê Nara, que provavelmente não esperava nada, filha de André Capuano, o churrasqueiro, e de Gilka Verana, que também participava como artista da performance.
No início das duas horas de churrasco, foi anunciado ao microfone que todos nós, trabalhadores do carrinho e da espectação, deveríamos fazer a abertura da Copa do Mundo. O volume mais alto se revezava entre artistas do USO, que cantavam música e agitavam coreografias com as pessoas da fila do churrasco, e com o público que espontaneamente propunha ou compartilhava alguma coisa. No meio das performances musicais, o USO sacou tragédias gregas encadernadas. Para alguns, a comida foi o caminho para o teatro; para outros, o teatro foi a desculpa para a comida, em uma comunhão inevitável e fundante.
É curiosa a escolha do grupo de ter uma sede ambulante. O Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, que teve a sua sede demolida em 2014 pela construtora Ink Incorporadora, diz que “ter sede é sediar pensamentos”. O que significa, então, escolher o nomadismo dentro da cidade? Diferente da itinerância entre Sescs, mais parecida com a itinerância do circo; parece haver um desejo de se aprofundar no território, mesmo que por poucas horas.
Rapidamente foram distribuídas as personagens de Édipo Rei; todos nós, sem personagens, fomos o coro, e rapidamente o carrinho grego e seus arredores transformou-se em uma pólis. Jocasta e Creonte declamavam ao lado do cabeção de porco, que agora tinha suas orelhas decoradas com os sacos de pão que apareciam com o decorrer da produção dos sanduíches. Pessoas pegavam os instrumentos disponíveis guiadas pela vontade, na tentativa de fazer uma trilha para as falas trágicas, que logo ganhou ritmo rimado. As risadas cresciam junto ao tom exagerado que os intérpretes acrescentavam aos textos. A tragédia grega encontrou outra catarse. Não se pretendia fazer emocionar pretensiosamente com a tragédia, nem ironizá-la e diminuí-la de forma cínica. O que aconteceu foi uma operação camp, nas melhores palavras de Susan Sontag. Se escolheu exagerar a tragédia inevitável, em busca do anti-trágico, sem tirar a sua dimensão política, sem escondê-la, sem reivindicá-la. Tornando-se vulnerável frente à tragédia, ao mesmo tempo que não se permitiu oferecer à ela, à tragédia, o poder de fragilização.
Talvez, para a pólis em volta do carrinho, Édipo Rei fosse trágico pois assim aprendemos nas aulas de história e literatura. Mas as nossas tragédias tem mais a ver com o que estava do outro lado do churrasco: a goleada da Alemanha, as músicas românticas e melancólicas à disposição para serem tocadas, pessoas que escolheram ficar três horas na fila do teatro na noite da virada cultural, mesmo com a grande chance de não conseguirem ingressos. Talvez a maior tragédia da noite foi o fato da performance acontecer dentro de um prédio.
Tenho visto muitos “teatros de rua” acontecendo dentro das instituições, muitas vezes em espaços abertos. No iBT, nos Sescs, inclusive na Funarte; seria interessante se as instituições pagassem o espetáculo para que ainda fosse feito fora dela. Estamos enfrentando como categoria um aprisionamento produtivo, estético e filosófico frente as instituições privadas, que promovem uma despolitização e, portanto, uma diminuição da autonomia e organização política, juntamente ao descaso público com os editais da cultura e com a Lei do Fomento ao Teatro. Além disso, também há um grande conservadorismo na rua que pode ser amedrontador, sem falar na destruição dos teatros em São Paulo, desta vez sem figuras de linguagem. Precisamos voltar à rua e reivindicar o nosso direito à cidade, um trabalho feito exaustivamente pelo USO em toda a sua existência.