Palcos imaginários: o que vemos quando lemos dramaturgia?

As características tradicionais da dramaturgia há muito não se fazem necessárias. Não é imprescindível ter rubricas ou diálogos para ser dramaturgia; muitas têm cara de conto ou de poesia, mas não o são. Será que o critério para ser uma dramaturgia, então, é a autodeterminação da pessoa autora? Eu não gosto muito dessa ideia. A falta de rigor da contemporaneidade me incomoda, e gosto da caminhada de encontrar um sentido para as palavras. Como muito bem escreveu Artur Kon, “a supressão do debate teórico permite que se elabore todo tipo de fantasia a partir da cena, e portanto que se elabore a cena a partir de todo tipo de fantasia.” Ele refere-se ao termo performativo; eu aqui procuro aplicar o mesmo saber ao termo dramaturgia. Se tudo é dramaturgia, nada é dramaturgia. Né???

Gosto de me debruçar decidida a encontrar sentidos - razões de ser - que a dramaturgia tem para mim. Recentemente tenho encontrado mais razão de ser na dramaturgia como leitura, e não como cena, sob justamente a ideia de um palco imaginário, conceito que vi sendo usado por Ryngaert. Quando lemos dramaturgia, diferente de outros gêneros literários, imaginamos situações fora do cotidiano, inseridas em um palco, teatralizadas - com expectação, produção de poiesis corporal e convívio, para usar a definição de teatralidade que gosto tanto de Jorge Dubatti. Sarrazac compara o romance com a dramaturgia - as longas descrições da prosa ficam a cargo agora das imagens produzidas às vezes por um grupo de teatro, às vezes pela pessoa leitora em sua imaginação. 

Michele Petit, antropóloga da leitura, quem eu gostaria de ter como amiga pessoal, propõe um debate sobre o que vemos quando lemos. Paul Auster escreve em carta: “Como leitor, às vezes me acontece de ter dificuldades para situar uma ação, para compreender a geografia de uma história. (...) Mais do que me projetar no cenário fictício que o autor descreve (uma pequena cidade no Mississipi, uma rua em Tóquio, um quarto numa mansão inglesa do século XVIII), tenho a tendência de situar os personagens em lugares que conheço pessoalmente. Eu não havia me tocado de que era o responsável por esse hábito até ler Orgulho e preconceito mais ou menos na idade dos vinte anos (um livro que não tem quase nenhuma descrição material) e me surpreender ao ‘ver’ os personagens na casa onde eu havia crescido. Uma revelação sensacional. Mas como ver um cômodo que existe num livro se o autor não indica o que há dentro dele? Então você inventa o seu próprio cômodo ou enxerta a cena no interior da lembrança de um cômodo. (...) O espírito humano tem horror ao vazio? Existiria uma necessidade de preencher o que é vago e disforme, de tornar concreta uma ação, ou você pode se satisfazer com palavras sobre a página, e unicamente com elas, nesse caso, o que acontece com você quando lê essas palavras?”

Ao que Coetzee responde: “O que eu pareço ter no lugar da imaginação visual, é o que em termos vagos eu chamaria de uma aura ou uma tonalidade. Quando retorno mentalmente a um livro específico que conheço bem, parece-me que convoco uma aura única, que claro, não posso formulá-la sem de fato reescrever o livro.” Essa aura - palavra da moda entre os adolescentes - também é chamada por Petit e outros autores de impressão, impregnação, tonalidade, infusão. Peter Mendelsund, autor do livro ainda não traduzido para o português “What we see when we read” disse que “Se é verdade que nossa imaginação não pode nos levar além de uma certa imprecisão, talvez esse seja um elemento chave da razão pela qual nós gostamos tanto das histórias escritas. O que implicaria dizer que, às vezes, temos vontade de ver apenas muito pouco.” 

Quem escreve dramaturgia e também quem lê dramaturgia imagina blackouts, cortinas se abrindo e se fechando, luzes de cores específicas se acendendo e se apagando, ou ainda dando foco a apenas um atuante ou a um objeto; imagina pessoas saindo e entrando de cena, imagina poças de sangue, vidros quebrando, gritos, gemidos, silêncios. Esse palco parece ser tristemente repetitivo: parece que não há outra opção que não a caixa preta, apesar do nosso grande desejo como categoria teatral de sermos sujeitos do nosso tempo. Não estou recusando esse palco; a ideia aqui é refletir os motivos do nosso imaginário, construído em colaboração entre a pessoa que escreve e a pessoa que lê, assumindo uma perspectiva pós-estruturalista, ainda estar preso na caixa preta. E, assim, pensar modos de criar novos imaginários.

Talvez uma resposta para essa questão seja incentivar, lendo e escrevendo, a construção dessa aura descrita por Coetzee. Não escrever que as cortinas se fecham se não for imprescindível para o texto. As dramaturgias que eu conheço que imaginam outros palcos costumam ser mais um registro daquela encenação específica feita pelo mesmo grupo que escreveu a peça, muitas vezes em processo colaborativo. Ou seja, aqui o imaginário foi outro porque a escrita foi feita em sala de ensaio, em cima de palcos já existentes. A leitura, provavelmente, vai ser feita pensando na memória da encenação, ou nas fotos que ficaram depois e que muitas vezes acompanham a publicação. Insisto em acreditar que podemos imaginar outros palcos nas dramaturgias escritas fora da sala de ensaio.

Estou querendo encontrar aqui um deslocamento da linguagem, como propõe o formalismo russo no conceito da literariedade. Em “A arte como procedimento”, texto paradigmático de Viktor Chklovski, a linguagem poética é caracterizada pelo seu estrangeirismo e capacidade de surpreender; o discurso poético é lido como tendo como fim a desautomatização da percepção. Como produzir literariedade no nosso imaginário sobre o palco?

Essa insistência na caixa preta que me parece ser muitas vezes inconsciente contradiz as nossas vontades contemporâneas/performativas/pós-modernas, como preferir chamar. Como nos libertar do aprisionamento imaginário? O esforço vem antes da encenação, antes da escrita, antes da leitura. Com quais palcos sonhamos? Quais palcos queremos ler? Qual palco quero escrever no silêncio de casa, na espera do ônibus, no barulho da sala de aula, no intervalo do almoço, no trajeto do metrô, antes de compartilhar as ideias, antes de piquetar as palavras? Vamos criar novos imaginários dos nossos palcos dramatúrgicos.

Referências:

Um mundo sem drama é possível? Esboço para uma retomada da teoria do teatro pós-dramático - Artur Kon; artigo publicado na revista Urdimento

A arte como procedimento - Viktor Chklovski

Ver imagens na leitura? - Michele Petit; faz parte da coletânea Somos animais poéticos

A natureza dos textos dramatúrgicos e o palco imaginário: a leitura da dramaturgia no contemporâneo - Fabiano Tadeu; artigo publicado na Revista Signos

Subscribe to Citrica

Don’t miss out on the latest issues. Sign up now to get access to the library of members-only issues.
jamie@example.com
Subscribe